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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2008 | 13h22

Não li o texto de ‘Veja’, mas vejo – sem trocadilho – que a revista está usando a mesma foto de capa, de agência, que havia elogiado na edição do ‘Estado’, falando sobre ela aqui no outro dia. Volto ao assunto. O que mais me havia impressionado na tal foto era o rosto encoberto do pai, o que me pareceu perfeito para consolidar uma imagem de dissimulação no inconsciente do observador. Achei que seria irresponsável destacar isso, até porque o clima de condenação do pai e da madrasta já estava estabelecido e eu não queria participar do linchamento moral da dupla. ‘Veja’ agora estampa – ‘Foram eles’. Tudo aponta que sim e a polícia pediu o indiciamento do casal, mas ambos continuam negando, e isso após 17 horas de interrogatório, só na sexta-feira. Ou eles estão dizendo a verdade ou possuem uma resistência que os fará arder no inferno – aliás, no inferno os pobres já estão, considerando-se o horror em que o pai e a madrasta estão imersos. Creio, e nisso não estou sozinho, que nunca vamos saber com certeza, a menos que algum deles resolva confessar, ou outra pessoa assuma a autoria do crime hediondo. Estou na Redação do ‘Estado’ e meu editor, Dib Carneiro, me chamou a atenção para um texto de Sérgio Augusto no ‘Aliás’. O pai e a madrasta podem até ser culpados, mas a imprensa se antecipou na condenação e favoreceu o clima de linchamento moral. Não estou aqui para criticar os coleguinhas, principalmente da televisão. Eles sabem o que fizeram, vendendo a alma ao Diabo em troca de audiência. Mas essa história mexeu comigo e me interessa como tragédia. A morte – o assassinato – de Isabella foi só o primeiro ato. A tragédia verdadeira começa agora. As fotos de ontem na saída da delegacia – o pai abobalhado, a madrasta em lágrimas – satisfaz a massa que queria o sangue do casal. ‘Se’ cometeram o crime, mas ambos negam, eles merecem. A tragédia é que, mesmo sem confissão, tudo já está destruído. A família, a honra, os filhos. “Se’ foram eles, e se o pai realmente jogou Isabella ainda viva por aquela janela, como conviver com isso? O caso me perturba muito. Dá filme – e quem sabe a ficção iluminasse a pergunta que não cala, como e por que? –, mas não sei se gostaria de vê-lo. É muita dor.