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Inferno astral

Luiz Carlos Merten

15 Setembro 2014 | 09h50

Comemorei meu aniversário no sábado à noite, numa festa bem movimentada. Considerando-se a data – 69 anos! -, todo mundo esperava de mim algo temático, mas tivemos de manter o decoro por causa do restaurante em que reuni os amigos. Algumas ausências doeram. Silvana Arantes sumiu no mundo., Ninguém me dá nem notícias dela. Vilmar Ledesma há dois anos consecutivos não prestigia minha festa, e são pessoas que andava encontrando só nesse dia. Espero reencontrá-los nos 70 (e espero chegar lá). O bom de aniversariar é que termina o inferno astral. Tenho recebido elogios – Maria do Rosário Caetano amou minha entrevista com Geraldine Chaplin, Alessandro Giannini jura que se emocionou com meu texto sobre De Menor, de Caru Alves de Souza -, mas dois leitores escreveram cartas para o jornal me espinafrando. Num minitexto sobre Absolutamente Certo, nos filmes na TV, para elogiar, escrevi que até a trilha era surpreendente. E era, com a existencialista Onde Estou? Quem sou eu? – ao invés das tradicionais marchinhas carnavalescas -, mas errei o nome do cantor e um cara chamado Batina veio para cima de mim com fúria santa. Ignorante foi o adjetivo mais simpático com que me brindou. Pior foi a leitora que me acusou de não ter visto Era Uma Vez em Nova York, de James Gray, e somou a isso as acusações de praxe (não entendo nada de cinema etc). Pelo teor do texto dela, não vimos, porque ela tem uma explicação muito da pífia para certos comportamentos em cena. Chega a trocar os personagens, o que me acusa de fazer. Faço meu mea culpa. Vi o filme em Cannes, no ano passado, e até entrevistei Marion Cotillard, mas não revi, e foi fatal. Escrevi que Marion faz Ewa, uma judia polonesa disputada por dois primos e me referi aos nomes dos atores,. Joaquin (Phoenix) e Jeremy (Renner), o que pode ter gerado confusão. Fui rever ontem o filme. Amo James Gray e ele ama Rocco e Seus Irmãos, que tem sido referência para ele. Na Folha, me disseram que Sérgio Alpendre considerou The Immigrant o melhor filme do ano. Sorry, Sérgio, mas não é. Tem momentos de fulgurante beleza, mas é o menos logrado e emocionante dos filmes de James Gray. Talvez por se haver inspirado em sua mãe, ele tenha, de alguma forma, se policiado. Fica só na superfície do melodrama. Não se derrama, não vai à essência, não consegue ser seminal. E os personagens, de tão ambíguos, não criam empatia. Jeremy Renner, que faz o mágico, é o falso bonzinho. Joaquin Phoenix, que prostitui Ewa/Marion, embora a ame, é o falso vilão. Na verdade, se ela se sacrifica pela irmã, ele se sacrifica por Ewa. É um anti-herói atormentado, digno de Dostoievski, mas Joaquin Phoenix, mesmo sendo grande ator como é, não dá conta dele, como Marion também não dá de Ewa. James Gray escreveu o papel para ela, mas a personagem chega a ser irritante. Demasiado frágil, vive sussurrando e chorando. Demasiado forte, pois embora se culpe ela atinge o que quer mesmo fazendo o que não quer (e com certeza manipula os homens). Descobri até o que me induziu a pensar em Ewa como judia, embora ela vá à missa e reze para a Virgem. Ela vem de Katowice e conta a Joaquin que seus pais foram mortos por soldados diante dela e da irmã. Polônia, anos 1910 – a narrativa começa em 1921 -, tudo isso desenhou na minha cabeça um progrom, e acho que é. Ewa me sugere uma nova cristã. Ela vai à Igreja e se confessa, e Joaquin, tratado como judeu imundo pelo policial que bate nele, ouve a confissão. Os dois estão querendo se compreender, em busca de absolvição, mas ela admite que há muito tempo não ia àquele lugar. É belo, mas não um grande filme. Grande, só o final, que não vou dizer como é. James Gray divide realisticamente a tela e cria duas ações simultâneas, filmadas de uma certa distância. O interessante é que, se Era Uma Vez em Nova York dialoga com Sergio Leone (Era Uma Vez na América) e Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão) – a tragédia dos imigrantes -, as cenas de Ewa no teatro, por sua inadequação, me lembraram de Britt Ekland em Quando o Strip-Tease Começou, de William Friedkin. E eu me sinto melhor comigo mesmo, agora.