Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » (In)Felicidade

Cultura

Luiz Carlos Merten

20 Setembro 2010 | 12h00

Fui ver ontem ‘Coincidências do Amor’, que emendei com ‘A Vida Durante a Guerra’, de Todd Solondz, no Festival Indie. Minha amiga Simone, que gerencia o CineSesc, me falou do sucesso da mostra, que está arrebentando, lotadaça em todas as sessões. Encontrei amigos. Jefferson De, Josafá (que desertou do blog, mas me anunciou que prepara sua estreia na direção), o pessoal da HBO. Todd fala de felicidade (de novo) e de família, mas no estilo dele – gente feia, infeliz, mal-amada, cenas de sexo filmadas de um jeito que não dá para perceber se estão gozando ou se entediando, pedofilia, homossexualismo reprimido e por aí vai. A plateia ria muito, mas confesso que, embora bem feito e interpretado (por todo o elenco), o filme me cansou. Não porque seja longo, mas porque o diretor olha aquela humanidade miserável sem empatia nem compaixão. Saí do cinema me perguntando – mas o quê, exatamente, Todd Solondz espera que a gente sinta por seus personagens? Ele olha, seleciona o que a gente vê. A gente olha, eu olhei, como olharia, talvez, para a gélida paisagem da Lua, que, por sinal, aparece enorme em algumas tomadas noturnas (não deve ser por acaso). Acho que a paisagem da Lua pelo menos me surpreenderia. Nem isso ocorreu em ‘A Vida Durante a Guerra’, já que o ‘espírito’ e o ‘humor’ do filme são repetecos de ‘A Felicidade’, do qual gostei mais (na época, pelo menos). Engraçado, tenho falado ultimamente com xiitas da correção política que me cobram meus gostos. ‘As Melhores Coisas do Mundo’, de Lais Bodanzky, é homofóbico porque o gay é ridicularizada o filme inteiro e o final, quando ele salva o garoto, não o redime (esses militantes acham). ‘Elvis e Madona’, de Marcelo Lafite, é machista às avessas, o que quer que isso signifique, com sua história do gay e da lésbica que formam uma família. O engraçado, no caso, é que sinto muito mais preconceito no medo do menino de ‘A Vida Durante a Guerra’ de ser gay e da mãe que bate pé dizendo que ele não vai ser gay porque ela vai protegê-lo (e aí ocorre aquilo que vocês vão descobrir quando o filme for lançado). Socorro! Já o ‘Coincidências do Amor’ teve um efeito terapêutico sobre mim. Logo na abertura, quando Jennifer Aniston diz que vai ter um filho, uma produção independente e sai à cata de esperma, Jason Bateman pede para ela segurar, porque pode se arrepender, descobrir o homem de sua vida etc. Tudo isso que ele fala constitui o ponto de partida de ‘Plano B’, com Jennifer Lopez. Há um lance de ‘amor à distância’, mesmo quando as pessoas estão próximas, e isso me remeteu à comédia romântica com Drew Barrymore e Justin Long, que é melhor. Independentemente do efeito que cada uma dessas comédias, isolada, me produziu, acho que todas se articulam numa única  comédia, ou num único (novo) formato para comédias românticas. Jennifer Aniston é um fenômeno. Já disse que não curto enlatados e não vi ‘Friends’ (que minha filha ama). Mas não sei se existe outra estrela como Jenn, surgida na TV, e que está, há tempos, em todas as listas de dez personalidades mais poderosas de Hollywood. Eu tenho de admitir, para ser sincero comigo mesmo, que gosto de Jennifer Aniston. E o menininho que faz o filho dela – e do Jason – é ótimo. Ele tem uma cara séria, triste, diz coisas graves. ‘Coincidências do Amor’ me interessou, minimamente, bem mais do que o novo Todd Solondz.