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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2008 | 15h17

Mário Kawai tem feito o que pode para divulgar o ciclo Fellinianas, que prossegue até dia 28 na Sala de Cinema da Caixa Cultural, na Praça da Sé 111. A mostra reúne filmes inspirados na obra de Fellini, ou de alguma forma tocados por ela, como ‘Paranoid Park’, de Gus Van Sant, que usa na trilha um trecho de Nino Rota, para qual filme mesmo? Entre outros, você pode (re)ver ‘Cinema Falado’, de Caetano Veloso, que tem aquela cena linda do irmão do Cae dançando em frente à igreja de Santo Amaro, uma cena que poderia ser de ‘Os Boas Vidas’ (I Vitelloni). Gosto também de ‘Eu Me Lembro’, do Edgar Navarro, e ‘Elsa e Fred’, do Marcos Carnevalle.
Celdani pega carona num comentário meu em Filmes na TV, sobre ‘Almas Desesperadas’, de Roy Ward Baker, com Marilyn Monroe, para remeter a ‘O Segredo das Jóias’, de John Huston, no qual MM, em princípio de carreira, é a própria boneca de carne. Marilyn foi muito bem tratada por Huston, que lhe deu primeiro esse pequeno, mas importante, papel – estou colocando entre vírgulas de propósito, para que o João mais uma vez se sinta cheio de razão para dizer como escrevo mal –, e depois deu a MM seu último papel como protagonista, em ‘Os Desajustados’, de 1961, escrito por Arthur Miller, com quem a estrela se havia casado. Ela morreu no ano seguinte, deixando inacabado ‘Something’s Got a Give’, de George Cukor. Sobre Huston quero dizer dizer que já deu para perceber que poderíamos ter um blog só sobre ele. Sempre tem alguém querendo mais. Quem foi que lembrou de ‘Beat the Devil’? ‘O Diabo Riu por Último’ é uma sátira muito divertida de ‘Relíquia Macabra’, do próprio Huston, agora numa parceria com Truman Capote. Ver Bogart, Jennifer Jones, Gina Lollobrigida, Robert Morley e Peter Lorre pode não ser uma experiência visceral, mas que o humor do filme é peculiar e a gente se diverte paca, ah, isso é verdade. Acabo de me lembrar agora do filme mais bizarro de Huston, ‘A Lista de Adrian Messenger’, que ele fez em 1963, entre ‘Freud, Além da Alma’ e ‘A Noite do Iguana’. Tenho cá comigo que Robert Altman (re)viu este filme antes de ‘Assassinato em Gosford Park’, no qual misturou Dame Agatha Christie com Jean Renoir (‘A Regra do Jogo’), mas tem ali também uma pitada do estranhamento de Huston. ‘A Lista’ não é de suspense, mas de mistério, e Huston complicou ainda mais a história fazendo com que Tony Curtis, Kirk Douglas, Burt Lancaster, Robert Mitchum e Frank Sinatra representassem disfarçados, desvendando os disfarces no desfecho, com a solução do mistério da série de assassinatos. ‘A Lista’ tem ainda, como ‘A regra do Jogo’ e ‘Gosford Park’, uma cena de caça à raposa. Existe outra, muito famosa, em ‘As Aventuras de Tom Jones’, também de 1963, mas não interessa para a comparação. É como eu digo – se o assunto é John Huston, pode ser inesgotável. Até por isso, não foi por acaso que a autobiografia dele se chamou ‘Um Livro Aberto’…

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