Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Independentes!

Cultura

Luiz Carlos Merten

02 Novembro 2006 | 12h46

Recebo um e-mail com o resultado do 1º Prêmio da Crítica Independente da Mostra de São Paulo, formada basicamente por críticos de sites, que, ao contrário da cachorrinha de Florinda Bolkan, não receberam credencial do evento. Ah, Leon Cakoff… Quando o Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio) me mostrou a lista, comentei que nós, então, somos da crítica dependente, pois participamos da votação oficial, com direito a café da manhã e tudo (e em presença do Leon, imaginem!). Foi ontem de manhã e o anúncio da crítica ‘dependente’ será hoje à noite. Premiamos dois filmes, um estrangeiro e um brasileiro. Concordei integralmente com a escolha, mas não vou antecipar qual é, porque me juraram de morte (estou brincando…) se divulgasse antecipadamente no blog. Já a premiação dos independentes me pareceu meio disparatada, premiando Juventude em Marcha, do Pedro Costa, como melhor filme, e Anche Liberto Va Bene, de Kim Rossi Stuart, como filme (ou diretor) revelação. O melhor brasileiro foi Serras da Desordem, de Andrea Tonacci; o prêmio destaque foi para a exibição de De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio, na retrospectiva do cinema político italiano; e uma menção desonrosa foi para a projeção dos filmes Still Life e Dong, de Jia Zhang-Ke, pelas condições precárias em que foram exibidos. Não quero comprar polêmica, mas já comprando, acho que houve manipulação do resultado. Desde o Rio que alguns dos críticos independentes já vinham me perguntando o que achava do Juventude em Marcha, do Pedro Costa, e tenho até impressão que se decepcionaram quando disse que gostava. Desde Cannes, aliás, já vinha falando do filme do Pedro Costa, embora tenha postado um texto no blog para dizer que gosto como ato intelectual consciente, não é um prazer. Achei legal que os independentes tenham reconhecido (ou descoberto) a ópera familiar do Bellocchio, porque escrevi, no Estado e no blog, que De Punhos Cerrados ficou, para mim, como um dos dois ou três melhores filmes de toda a 30ª mostra, independentemente de ser reprise. Se há um filme que ficou melhor com o tempo, foi este. Mas a questão é a seguinte, de volta a Juventude em Marcha. O e-mail diz que houve duas votações – na primeira, Síndromes e Um Século, de Apichatpong Weerasathakul, diretor que me fala mais que o Pedro Costa, ganhou com 17 votos.; Juventude em Marcha teve 15 votos; Belle Toujours, do Manoel de Oliveira, também 15; e Mary, do Abel Ferrara, 13 votos. Numa segunda rodada, que não sei se já estava acertada, Pedro Costa ganhou com 10 votos, Apichatpong teve 7, Ferrara 3 e Oliveira 2. Respeito a opinião dos colegas independentes, como respeito (muito) Tonacci e Pedro Costa. Mas tenho de ser honesto comigo e com quem me lê. Sou mais a favor da nossa escolha, dos dependentes.