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Independência ou Morte!

Luiz Carlos Merten

07 Setembro 2007 | 10h23

Vejam como são as coisas. Vinha para o jornal, agora de manhã, e passei pela 9 de Julho, em frente ao prédio modesto em que morava Carlos Coimbra. Foi ali que o entrevistei, durante várias tardes, para o livro da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Fui eu que escolhi fazer a entrevista com Coimbra. Quando Rubens Ewald Filho abriu sua coleção, houve uma corrida de coleguinhas da imprensa aos grandes autores, ou aos autores de prestígio. Eu preferi dar voz aos malditos – Anselmo Duarte, cujo carma foi ter recebido a Palma de Ouro, por O Pagador de Promessas, e Coimbra, que dirigiu alguns dos maiores sucessos de público do cinema brasileiros nos anos 60 e 70. Queria descobrir como Coimbra trabalhava num esquema ‘industrial’ (e num país no qual, até hoje, a noção de indústria do cinema ainda é uma coisa muito complicada). Coimbra era solitário, morava num pequeníssimo apartamento de quarto-e-sala atulhado de coisas. Já visitei as casas de alguns de seus produtores e são verdadeiros palácios, o que me permite dizer que Copimbra emprestava seu ofício honesto para que outros enriquecessem. Honesto, sim, e é a isso que eu chego neste 7 de setembro. Ninguém ligava para o Coimbra, apesar do grande sucesso de público de A Morte Comanda o Cangaço e Lampião, o Rei do Cangaço. Ele só virou persona non grata da classe cinematográfica quando fez Independência ou Morte!, em 1972, e o filme foi encampado pela ditadura militar, que o transformou em peça-chave das comemorações do Sequicentenário da Independência, em 1972. Coimbra foi execrado pelos que, com razão, se opunham à ditadura, mas erraram o alvo de seus ataques. Ele me contou como fez o filme sem nenhum apoio – está no livro – e como, depois, a ditadura, considerando-o um produto bem acabado, se apropriou dele. Coimbra sempre lamentou não ter tido coragem de se opor aos militares, impedindo o auê em torno de Independência ou Morte!, mas seu filme não é oficial. Posso preferir, e efetivamente prefiro, Os Inconfidentes, que é meu Joaquim Pedro preferido (com O Padre e a Moça), mas o filme de Coimbra tem algumas coisas muito interessantes. Dom Pedro é um mulherengo que está mais interessado na amante do que nas reivindicações dos brasileiros e da própria mulher, a imperatriz Leopoldina, verdadeira mãe da independência. Na hora H, minutos antes do célebre grito do Ipiranga, ele está saindo detrás da moita, arrumando a calça. Um herói que acaba de c…? Mas isso é macunaímico, pelo amor de Deus. Não digo que tenha sido um grande cineasta, não digo nem mesmo que Independência ou Morte! fosse bom, mas, no clima de polaridade do começo dos anos 70, Coimbra terminou identificado com o lado errado e pagou por isso. E ele fez escolhas erradas. A vida inteira quis adaptar Iracema e foi fazer seu filme baseado no romance de José de Alencar justamente em plena polêmica da proibição da outra Iracema, a de Jorge Bodanzky, em Uma Transa Amazônica. Coimbra perdeu dinheiro – ele era o próprio produtor –, seu filme foi um fracasso e ainda lhe colaram a etiqueta de haver feito a resposta da ditadura à provocação de Bodanzky (cujo filme é maravilhoso, é bom acrescentar). Deve ser um resquício daquela mentalidade dos anos 60, a solidariedade com os derrotados, mas me lembrei hoje, 7 de setembro, do Coimbra. Sempre lamentei que, nos últimos tempos, pensasse sempre em visitá-lo, mas ia deixando, deixando… Ocorreu a mesma coisa com a Nadir, a calorosa viúva de Walter Hugo Khouri, de quem eu gostava tanto. Um dia as pessoas morrem e a gente se culpa pelo abandono. Pode não valer para tudo nem para todos, mas na minha experiência a gente só se arrepende do que não faz.