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Iñárritu, o que faz história (e não apenas conta)

Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2016 | 10h19

Acertei muitas das minhas previsões quanto aos indicados do Oscar e, para dizer a verdade, adorei ter errado algumas. Não coloquei Tom Hardy entre os finalistas e ele é o antagonista perfeito de Leonardo DiCaprio no longa de Alejandro Gonále4z-Iñárritu. O Regresso, que volta e meias chamo de O Retorno, é o campeão de indicações dessa edição. Teve 12, incluindo melhor filme, diretor e ator (Leo DiCaprio). Mad Max – A Estrada da Fúria, de George Miller, teve dez indicações, entre elas melhor filme e direção, mas não a de atriz para Charlize Theron, o que raia o absurdo, porque o filme é ela, como Furiosa. Mas tudo isso vocês já sabem, claro, porque foi o assunto de ontem nas redes. Alê Abreu cravou o Brasil nas indicações para o 88º Oscar com a animação O Menino e o Mundo. Acho que fui o primeiro a tentar falar com ele, após o anúncio, e o Alê não estava no escritório e não usa celular, como eu. À tarde ele emitiu um comunicado, agradecendo aos que tornaram seu sonho de animação possível e dizendo que seu filme é um grito – político, latino-americano -que ressoou onde devia. Em princípio, estar entre os indicados da categoria já é um feito, mas O Menino concorre com Divertida Mente, da Pixar, que muitos críticos colocaram entre os dez mais do ano passado, não apenas animações, e Anomalisa, que tem a marca do cultuado Charlie Kaufman. Não será fácil ganhar, mas o colorido de Alê, tão vivo – e herdeiro do movimento hippie e da viagem lisérgica dos Beatles em O Submarino Amarelo, de George Dunning -, poderá destacar-se numa eventual polarização entre os outros dois. E aí Davi derrota Golias, quem sabe? Não é raro que campeões de indicações saiam da cerimônia de premiação sem estatuetas, ou com alguma mísera consolação. Vocês sabem que, desses filmes indicados, voto no Mad Max – entrevistei no outro dias Rodrigo Teixeira e o produtor me disse que Estrada da Fúria também é seu favorito, ou era, entre os indicados do Globo de Ouro -, mas estou quase migrando para o Iñárritu, porque embora O Regresso e Max sejam filmes de ação, e a Academia não tem muito apreço por esse cinema, o dele tem uma espessura dramática que talvez seja mais atraente para o Oscar. E tem mais – se vencer, o mexicano fará história em Hollywood. Teria de pesquisar, mas, se a memória não me falha, não existem muitos casos de diretores que tenham vencido o Oscar em dois anos seguidos. Iñárritu levou no ano passado com Birdman – Deus me livre! – e isso poderá complicar sua situação. Acho, olha a necessidade de pesquisar, que ninguém bisa filme e direção desde os tempos heroicos de Frank Capra e John Ford, nos anos 1930 e 40. Acho que nem eles. Ford ganhou em 40 e 41 com Vinhas da Ira e Como Era Verde o Meu Vale, e no primeiro, se levou a estatueta de direção, perdeu a de melhor filme (que foi para Rebecca, de Alfred Hitchcock). Capra ganhou em 1934 com Aconteceu Naquela Noite, mas depois acho que houve um hiato, de um ou dois anos, antes de ele ganhasse outro prêmio de direção (por O Galante Mr. Deeds) e outro hiato, antes que ganhasse direção de novo (por Do Mundo Nada se Leva). Essa possibilidade de que o Iñárritu faça história em Hollywood, ganhando filme e direção, imediatamente me faz torcer por ele. O mexicano que vai arrasar Hollywood! Alê Abreu, que ontem sumiu, dá hoje uma coletiva (daqui a pouco). Por conta dela vou perder a cabine de O Regresso. Vi o filme na cabine da Fox, em Alphaville. Queria muito rever. E queria rever também o Fúria Selvagem, Man in the Wilderness, de Richard C. Sarafian, com Richard Harris, que tem tantas similaridades com The Revenant. Fiz agora minha participação no programa da rádio, vou me arrumar para a coletiva do Alê.