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Cultura » Iñarritu no Rio

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Luiz Carlos Merten

26 Setembro 2006 | 13h31

Foi o destaque de ontem aqui no Festival do Rio. Alejandro González Iñárritu veio mostrar Babel numa sessão para convidados, à noite, no Cine Odeon BR. Chegou com Walter Salles e, no palco, lembrou que há dez anos, quando esteve no País, viu Central do Brasil e pensou consigo mesmo que tinha de ser amigo do cara que havia feito aquele filme. Ficaram amigos e agora se reencontraram no Rio – Iñárritu chegando de San Sebastián, onde foi mostrar Babel; Walter, de Los Angeles.
Iñárritu teve uma recepção de gala, apresentado pela diretora artística do Festival do Rio, Ilda Santiago. Começou pedindo desculpas – “Acabo de tomar uma caipirinha. Se falar besteirice (foi a palavra que usou) me perdoem.” Falou bonito. Disse que o Brasil é sua segunda pátria, por causa do futebol. Definiu Babel como a terceira parte da trilogia formada por Amores Brutos e 21 Gramas. “Meu novo filme tem um contexto político muito forte, muito explícito, mas, como os outros, fala de pais e filhos e de relações familiares.” Babel conta a história dessa americana que atravessa o deserto africano, de ônibus, e recebe um tiro. O fato tem antecedentes e desdobramentos em outros dois continentes – a Ásia e a América, na fronteira entre México e EUA. “Foi um filme difícil de fazer. Me tomou um ano, filmando em três continentes, em cinco línguas”, explicou o diretor. Iñarritu quis fazer um filme sobre o mundo globalizado. Talvez inviabilize o de Fernando Meirelles, que tem um projeto parecido – a atualização, para o século 21, do clássico Intolerância, de David W. Griffith.
Não sou o maior entusiasta de Babel. Para discutir o mundo globalizado, Iñárritu trabalha num esquema de co-produção internacional, com grandes astros de Hollywood (Brad Pitt e Cate Blanchett). Acho seu filme forte, impactante, mas se você pensa muito nele o que vem é o seu ponto fraco – o roteiro é daqueles que deixa muito evidente o artifício de sua construção dramática. Mas foi bonito ver o diretor, no palco do Odeon, aplaudido pelo público, confirmar uma sensação que tive ao ver Babel em Cannes. “Achei que estava fazendo um filme sobre o que nos separa. Agora, com distanciamento, descobri que fiz um filme sobre o que nos une.” E o que é isso, companheiro? “A dor.” Não podemos isolar-nos. Sem campaixão, não há solução, ele diz. Babel estréia só em janeiro nos cinemas brasileiros. Não parece uma boa data, com as férias e coisa e tal. “É um filme diferenciado, para um público de arte, espectadores adultos. Não vai competir com os filmes de férias”, informa Jorge Pellegrino, da distribuidora UIP. Antes, ele ainda negocia a participação de Babel na Mostra de São Paulo. Fique de olho.