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Luiz Carlos Merten

11 Julho 2011 | 14h55

Havia combinado de almoçar com minha filha Lúcia e meu amigo Dib Carneiro na Mercearia do Conde. Quase dei o cano nos dois, o que – acho – nenhum dos dois estranharia… Havia começado a ver ‘Nas Trilhas da Aventura’ no Telecine Cult e estava me divertindo tanto que queria ficar vendo o western de John Sturges até o fim. Não creio quie existam muitos críticos dispostos a avaliar Sturges como um dos grandes do western, mas o gênero lhe deve ótimos filmes, e grandes sucessos. Os melhores são os westerns a sério, mas Sturges cultivou a paródia em pelo menos ‘Três Sargentos’, com Frank Sinatra,. E ‘Nas Trilhas’, com Burt Lancaster. Havia falado no filme na coluna de filmes da TV do ‘Caderno 2’. Até onde me lembrava, a reputação de ‘The Hallellujah Trail’ (título original) não era muito boa, mas o formato Cinerama estava na moda em 1965/66 e o filme ficou um monte de tempo em cartaz no Baltimore, em Porto Alegre. O filme conta a história de um desatacamento da Cavalaria que deve proteger carregamento de uísque que está sendo enviado para um Oeste sedento. A narrativa desenvolve-se em várias frentes – índios, mineiros e a Cavalaria querem, por diferentes motivos, o uísque, mas há um movimento de mulheres, protofeministas, lideradas por Lee Remick, que é contra o líquido do Diabo. Todo mundo se perde em meio a um nevoeiro que, na época, muitos críticos transformaram em metáforta do próprio filme. Sturges teria se perdido nas trilhas da Aleluia. Quero dizer que 40 e tantos anos depois o filme me pareceu bastante esperto e, certamente, nada perdido. A confusão dos índios, brigando entre eles, a disputa entre a feminista Lee e o militar, beberrão naturalmente (Lancaster), a subversão dos códigos do Exército e o romance entre o jovem Jim Hutton e a sexy Pamela Tiffin, tudo isso me pareceu muito prazeroso. Ri-me muito, mas, infelizmente, tive de desistir de ‘Nas Trilhas da Aventura’ lá pélo meio para ir ao encontro de quem me esperava. As cenas de Lee e Lancaster têm um timing bom de comédia. Ambos dizem suas falas taco no taco e a cena em que ela invade o alojamento, ele está no banho, ela diz que não teria enviuvado duas vezes se se surpreendesse com a simples visão de um homem pelado, tudo aquilo é dito com uma malícia e, ao mesmo tempo, com uma seriedade que eu gostaria que a cena não terminasse. Não me lembrava de Jim Hutton. Era bonito, possuía uma elegância viril e passa o tesão que seu personagem sente por Pamela. O pai de Timothy Hutton morreu cedo, em 1979, aos 45 anos, de câncer. No ano seguinte, Timothy, seu filho, ganhou o Oscar de coadjuvante por ‘Gente Como a Gente’, de Robert Redford. Fui à internet em busca de informações sobre Jim Hutton. Lembrava-me dele em ‘Juramento de Vingança’, de Sam Peckinpah. Não sabia que estrelou uma série de TV sobre Ellery Queen, no papel do próprio. Fiquei pensando em quantos jovens talentos não cumpriram suas promessas iniciais. O caso de Jim foi uma batalha perdida, prematuramente, para a morte. Estou sem a ‘Monet’ do mês em casa. Espero que ‘Nas Trlhas da Aventura’ tenha alguma outra sessão em seguida, para que possa vê-lo inteiro. Mas vou ver do começo. Aqueles imbróglios no forte, os impasses entre os índios e Keenan Wynn caindo de bêbado foram me envolvendo. E não é que até os filmes ‘ruins’ de Sturges, com o tempo, ficaram bons? Ou já eram bons? Estou mais inclinado a crer na segunda opção.

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