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Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2009 | 20h35

PARIS – Existe um pequeno cinema na Rue Cujas, no Quartier Latin. Chama-se Accatone e a sala principal leva o nome do produtor Anatole Dauman. Há 17 anos que venho regularmente a Paris e o Accatone está sempre (re)exibindo, mesmo que em horários especiais, a obra de Pier Paolo Pasolini. Hoje, na saída de ‘Les Plages d’Agnès’ – no MK2 Hautefeuille, Rue Serpente, Odéon -, conferi no Pariscope o que estaria em cartaz no Accatone. Era ‘O Evangelho Segundo Mateus’, dava tempo e eu percorri voando aquelas quatro ou cinco quadras para chegar na hora. Em Lisboa, havia feito uma excursão a Batalha, que incluía Nazaré e Fátima. No santuário, assisti à missa (estou me purificando de todos os pecados). No sermão, em Fátima, o padre tomara uma frase do Cristo, na Bíblia – ele estava não me lembro onde, cercado pela multidão, acho que em Canãa, e alguém vem lhe dizer que sua mãe e irmãos estão lá fora. Jesus diz que não tem mãe nem irmãos e que todos, homens e mulheres, podemos ser sua família no amor de Deus. Nunca havia prestado muita atenção nessa história, que o padre, em Fátima, usou como mote para seu sermão sobre fraternidade e responsabilidade social. Confesso que fiquei grilado – Cristo negando Maria e seus irmãos… Não é a mesma coisa, mas fiquei com uma estranha ressonância da história de outra negação, a de Pedro, que nega Jesus três vezes antes do canto do galo, na noite do Getsêmani. Por que estou contando isso? Por causa do ‘Evangelho’. Pasolini inclui a cena em seu filme. Um dos seguidores do Mestre vem lhe anunciar a presença de Maria e de seus irmãos. Ele diz o texto bíblico – a negação e a afirmação da universalidade de sua família -, mas Maria já chegou, ouve o que diz seu filho, os olhares se cruzam. Ambos, Enrique Irazoqui, que faz o Cristo, e Susana Pasolini, mãe do diretor, a Maria, vertem lágrimas. O que significa a cena? Só sei que Pasolini deve ter tido o mesmo estranhamento que experimentei em Fátima, ao pensar no assunto. Havia visto ‘O Evangelho’ nos anos 60, quando estreou. Respeito Pasolini, mais do que gosto de seus filmes. Hoje, ‘O Evangelho’ me apanhou. Tive tantas oportunidades de rever o filme aqui mesmo, em Paris. Alguma coisa me arrastou hoje para o Accatone.