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Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2011 | 13h49

Mário Kawai chama a atenção para a mostra ‘Imagem Reencontrada’, que começou ontem no Centro Cultural São Paulo. Confesso que fui atropelado pela tal mostra, que agora tento recuperar no ‘Caderno 2’, mas está difícil. A sexta está cheia de estreias, e de grandes Filmes, como ‘Cisne Negro’ e ‘O Vencedor’, e eu também não havia publicado a entrevista que fiz com o brasileiro Affonso Gonçalves, montador do denso ‘Inverno da Alma’ – vocês já viram? ‘Imagem Reencontrada’ está trazendo um monte de filmes importantes que foram restaurados e estão zero bala. Imagino que Fellini (‘A Trapaça’), Leone (‘Quando Explode a Vingança’) e Pasolini (‘Appunti per Un Orestiade Africana’) terão a preferência dos cinéfilos, mas tem um Maciste de Guido Brignone que adoraria ver, isso para não falar de ‘Il Posto’, de Ermanno Olmi, de 1961, que François Truffaut adorava. Conhecia a fama do filme, mas foi Cannes – Cannes Classics – que me permitiu conhecer essa obra-prima. Alessandro Panzeri e Loredana Detto formam o casal de protagonistas. Olmi, o diretor de ‘A Árvore dos Tamancos’, é uma espécie de Robert Bresson italiano. Ele detesta o cinema de gênero e é de um rigor, no seu despojamento, que beira o ascetismo. Não acontece muita coisa em ‘Il Posto’. O sujeito quer um emprego e o consegue. Galga postos dentro da hierarquia, mas o trabalho é medíocre – de ‘funcionário’ – e Olmi faz uma descrição tão precisa da monotonia que muita gente vai achar o filme ‘parado’. O finalo, quando Domenico (Panzeri) antecipa que vai ficar ouvindo o som daquele mimiógrafo pelo resto de sua vida, seria de chorar (se Olmi acreditasse em lágrimas). Curioso, estou me lembrando de uma coisa que me disse Affonso Gonçalves, sobre ‘Inverno da Alma’. Filme lento não quer dizer que tenha de ser parado. Os de Olmi não são. Têm seu tempo próprio. Fiquei chapado quando vi ‘Il Posto’. Espero estar repassando uma dessas indicações ‘imperdíveis’. E a fotografia em preto e branco? Era tão melhor quando os filmes não tinha, como hoje, a obrigatoriedade de ser coloridos.

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