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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2010 | 20h27

CANNES – Uma e tanto da manhã aqui na França quando começo a escrever este post. Ia deixar para amanhã. Afinal preciso acordar cedo para assistir ao Mike Leigh da competição, ‘Another Year’, que vou emendar com o novo Woody Allen, com aquele título quilométrico, como é mesmo? ‘You Will Meet a Tall Dark Stranger’? Tenho a impressão que nada vai conseguir a emoção que tive agora à noite assistindo a ‘O Leopardo’, em Cannes Classics. Martin Scorsese foi apresentar a sessão e disse o quanto o filme de Viscointi é importante para ele. Nunca vi ‘Il Gattopardo’ daquele jeito, com aquelas cores, aquela cópia zero bala. E Alain Delon e Claudia Cardinale vieram apresentar o filme. Delon, que faz Tancredi, se emocionou tanto que no fim da sessão estava chorando. O jovem Delon, Rocco, se não foi o homem mais bedlo do cinema – e do mundo – esteve perto disso. E a Cardinale, meu Deus. Quando o príncipe Salinas, aliás, Burt Lancaster, diz a Don Calogero, Paolo Stoppa, que nossas crianças, Tancredi e Angélica, são belos, nunca uma fala foi tão verdadeira. A jovem Cardinale era um assombro. Quando ela entra em cena pela primeira vez, deu vontade de levantar e aplaudir. O que é aquilo? ‘O Leolpardo’ é definitivo sobre um mundo em transformação. O príncipe tem consciência do fim de sua época e, por isso, dança com Angélica Sedara, sabendo que, naquele momento, avaliza a aspiração de reconhecimento da burguesia endinheirada, que quer ser aceita nos salões da nobreza do Risorgimento. Lembro-me de Visconti dizendo, certa vez, que todos os seus filmes são sobre os Visconti de ontem, de hoje e de sempre, que ele retratava por meio de personagens cujos sonhos eram destruídos pela realidade. A sessão teve a presença de Benício Del Toro e Salma Hayek. Ela veio com o marido, um bilionário francês, o Eike Batista daqui. Estava linda, mas a noite era de Claudia Cardinale. Fico imaginando qual a emoção dela e de Delon, se vendo na tela, tão belos. Não é que eu ache que isso deva ser triste para eles, não. Mas é a viagem interior que me fascina. Fico imaginando. Eles devem repassar as emoções daquela filmagem, da sua juventude, da parceria com grandes artistas. Fotografia, música, tudo é 10. A trilha de Nino Rota é maravilhosa. Sempre achei que o tema de Michael Corleone em ‘O Poderoso Chefão’ vinha de ‘Rocco’, mas agora fiquei convencido de que a maior influência de Visconti sobre Coppola foi ‘O Leopardo’. As coisas precisam mudar para que tudo permaneça o mesmo. Repito – valeria ter vindo a Cannes, em 2010, só pelo momento mágico que tivemos esta noite. Coloco no plural. A Salle Debussy estava lotada. Aplaudimos de pé, todos. O filme ganhou a Palma de Ouro em 1963, há 47 anos. Visconti morreu em 1976, há 34. Ele ainda teve 13 gloriosos anos, durante os quais produziu principalmente ‘Vagas Estrelas da Ursa’ e ‘Violência e Paixão’. La Cardinale é protagonista no primeiro e tem um pequeno, mas decisivo papel, no segundo. Já é 1h30 da manhã. Não sei se vou conseguir dormir. A cabeça está a mil. Um Visconti tão grande e amanhã voltamos à programação normal, a Mike Leigh, que me aborrece desde ‘O Segredo de Vera Drake’. Vou tentar não ser preconceituoso, ver o filme de coração aberto. Só que, depois de ‘O Leopardo’, vai ser duro voltar à mediocridade que domina o cinema, e o Festival de Cannes, inclusive.