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Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2006 | 14h44

Tive um encontro muito interessante, há pouco, no Hotel Méridien, com Marco Bechis. O diretor de Garagem Olimpo, sobre a brutal repressão da ditadura militar argentina, integra uma representação do cinema italiano que está no Rio, participando do festival. Com ele, veio Ugo Gregoretti, com quem ainda não tive oportunidade de falar, mas pretendo. Gregoretti é o G final de Rogopag, que a Versátil lançou em DVD no Brasil. Assina um dos episódios do filme que também tem Rossellini, Godard e Pasolini. Gregoretti está mostrando aqui A Sicília de O Leopardo, documentário no qual revisita as locações do clássico que Luchino Visconti adaptou do livro famoso de Giuseppe Tommaso di Lampedusa. O Leopardo integra a retrospectiva de Visconti e o filme de Gregoretti é seu complemento indispensável. Adorei conhecer o Bechis. Ele me contou que morou em São Paulo, entre 1960 e 65. É chileno, filho de pai italiano e mãe argentina. Viveu muito tempo em Buenos Aires e hoje está radicado na Itália, mais exatamente, em Milão. Diz que é bom viver na Itália porque é um país que oferece boas condições – tem boa comida, uma cultura muito rica, uma certa justiça social. Objetei que, a se julgar pelos filmes de Gianni Amelio e Marco Tulio Giordana, esse ‘certa’ deve ser bem pequenino. Ele achou graça. Disse que não se pode colocar Amelio e Giordana no mesmo saco. O segundo é um diretor comercial. Bechis tem um projeto brasileiro que deve filmar no primeiro semestre de 2007. Ainda define as parcerias brasileiras. Me disse suas opções, mas pediu, pelamor de Deus, que ainda não escrevesse nada, no jornal nem no blog, para não melar as conversações. O filme vai tratar de disputas de terras em áreas do Mato Grosso habitadas pelos guaranis-cayowás. Bechis já veio três vezes ao Brasil desde 2002 para fazer pesquisa. Esta é a quarta viagem e, em novembro, ele volta para buscar locações e escolher o elenco. Bechis quer filmar com índios de verdade. Sonha com um filme bem radical, como proposta de linguagem. Diz que não adianta o tema ser político, se a linguagem não for a mais adequada para ele. Bechis não teme a polêmica. Cita Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Não gosta nem um pouco do filme. Diz que Cidade de Deus glamouriza a violência. Um jovem em formação que veja o filme vai querer pegar em armas, no final. Disse para ele que há controvérsia, que a coisa não é bem assim e o filme é crítico da violência que expõe. De qualquer maneira, Bechis quer que Bird Watchers – o título é uma metáfora; olhamos os índios e os conflitos de terras como turistas que observam aves exóticas na Amazônia e no Pantanal – seja forte. Sugeri-lhe que visse Serras da Desordem, do Andrea Tonacci. Ele respondeu que já viu meio filme. Houve um problema com o DVD e teve de parar. Do que viu, gostou muito.