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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2007 | 10h25

Tive um dia tão movimentado ontem que nem sobrou tempo para o blog. Abri velhas caixas com livros e revistas que permanecem empilhadas a um canto do meu apê, desde que me mudei (há pouco mais de um ano). Sou meio compulsivo, reconheço. Meio, não. Compulsivo inteiro. Coleciono algumas revistas que nem abro, acho que para não sofrer nenhum tipo de influência. Algumas delas eu folheei ontem pela primeira vez. E vi muitos filmes – encarei um antigo filme com Marlon Brando na TV paga (‘Quando Irmãos se Defrontam’, de George Englund) e fiz um programa duplo no Arteplex, à noite – depois da chuva -, assistindo a ‘Sombras de Goya’ e ‘PS – Te amo’. Vamos por partes. Antes de falar destes filmes – e de comentários de vocês, nos últimos posts – quero falar sobre o Ian McEwan. Terminei de ler ‘Na Praia’ e não posso deixar passar em branco algo que me veio por causa do que escrevi na minha relação de melhores do ano. Falei da compaixão em ‘Pecados Íntimos’, quando o policial que caçava implacavelmente o pedófilo se desespera e tenta ajudar o cara que se esvai em sangue, porque cortou o próprio sexo. Que cena, meu Deus! Que filme! De volta ao McEwan, acho que ‘Atonement’ não se chama ‘Reparação’ – e o filme ganhou o acréscimo de ‘Desejo’ ao título – impunemente. McEwan escreve para celebrar o poder reparador da literatuira, como reação ao poder destruidor que a palavra muitas vezes tem. Não fiz nenhuma pesquisa e nem conheço McEwan tanto assim, mas gostaria de acreditar que ‘Na Praia’ é anterior a ‘Reparação’, até porque me parece um rascunho genial. O livro conta a história deste casal jovem que, nos anos 60, não consegue consumar o casamento. Não é um casso de impotência por excesso de amor, como aqueles que entravam os personagens de Marcello Mastroianni em ‘O Belo Antônio’, de Mauro Bolognini, que Pier Paolo Pasolini adaptou do livro de Vitaliano Brancati, ou o John Savage de ‘Os Amantes de Maria’, de Andrei Konchalovski. No relato de McEwan, situado no limiar dos anos 60, a década que mudou tudo, o casal é imaturo, ela reprime os avanços do cara até o casamento e, na noite de núpcias, dá tudo errado, o que fortalece na mulher o sentimento de que é frígida. Ela pertence a uma classe superior – como em ‘Reparação’ -, a noite termina em acusação e ressentimento. Ela, em busca de reparação, faz uma proposta que ele consisdera idecente. Separam-se, nunca mais se vêem, mas ele nunca deixa de amá-la e nem ela a ele. O livro conta a ruptura, acompanha a vida dos dois, mas revela, na investigação psicológica, o que ambos gostariam de ter feito para evitar a separação. Essa possibilidade, tenuamente insinuada, vira o tema de ‘Reparação’ – e, no filme, os cinco minutos finais com Vanessa Redgrave são o que há de lindo, justamente pela compaixão que só uma atriz como Vanessa, com tudo o que representa, pode acrescentar a um papel. Vi o filme do Joe Wright numa sessão de imprensa na Mostra. Não sei o que as pessoas escreveram, mas ali, no fim daquela projeção, não senti muito entusiasmo. Eu estava chapado e ouvia as pessoas dizerem que o livro era melhor ou coisa que o valha. Ainda não tinha lido o romance. Já li e a adaptação, feita pelo dramaturgo Christopher Hampton, é brilhante. Espero que ‘Desejo e Reparação’ vá para o Oscar (e até que ganhe). Ainda não vi o ‘Sweeney Todd’, do Tim Burton, mas já assisti a outros candidatos considerados fortes, mas que não me marcaram (‘O Gângster’, de Ridley Scott). E ‘Desejo e Reparação’ é um luxo. Keira Knightley está deslumbrante, como atriz e mulher. Não consigo pensar no filme sem que me venha ela com aquele vestido verde, na cena fatídica da festa. Sempre achei que o vermelho era a corda da sedução, da paixão. Joe Wright me convenceu de que pode ser o verde.

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