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Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2007 | 11h53

RIO – Havia gente pelo ladrão para ver, ontem, I’m not There no cine Odeon BR. A platéia era formada predominantemente por jovens. Todd Haynes virou um diretor cult. Vocês se lembram dele quando fez Veneno, já com Julianne Moore? Vieram depois Velvet Goldmine, Longe do Paraíso e agora I’m not There. O filme é sobre Bob Dylan, mas não é uma biografia, e menos ainda uma biografia tradicional. Adoro Longe do Paraíso, uma releitura pós-moderna dos melodramas de Douglas Sirk, que Haynes quis fazer influenciado por Lacan, já que ele freqüentou um laboratório ou uma oficina em que o psicanalista usava filmes como Magnífica Obsessão, Tudo o Que o Céu Permite e Imitação da Vida para falar do seu ofício, discutindo a psicanálise como linguagem (e instrumento para compreensão do indivíduo e do mundo). Também gosto muito de Velvet Goldmine, o Cidadão Kane do glam rock, com sua narrativa em puzzle para desvendar o enigma da identidade de um astro da música. Tive um choque na abertura de I’m not There, porque o filme começa com a morte fictícia – de quem? Bob Dylan? -, incluindo a cena do bisturi, que rasga o corpo do cara na autópsia. Haynes faz a anatomia de Dylan por meio de sua música e de situações de sua vida. Em Velvet, várias pessoas davam seu depoimento. Aqui, o caminho é outro e vários atores interpretam o papel, mostrando a multiplicidade de identidades que se abriga sob o guarda-chuva da persona de Dylan. Achei o filme muito estiloso – preto-e-branco, cor, situações insólitas. Só não entendi o prêmio de melhor atriz que o júri de Veneza deu a Cate Blanchett. Tivemos este ano, no Lido, dois melhores ‘atores’. Cate faz, travestida, uma das facetas de Dylan. Ela é boa, como sempre, mas não é melhor do que seus companheiros de elenco. Acho que o prêmio foi dado por uma circunstância – Cate tem algumas das melhorees falas do filme, que discutem não apenas a influência folk sobre Dylan, mas também seus pensamentos sobre arte, política e comportamento social. O filme vai para a mostra, claro. E vai dar o que falar.