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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2006 | 11h51

Tennessee Williams criou grandes personagens – Blanche Dubois, Kowalski, Maggie the Cat, Mrs. Venable –, mas foi ele próprio um personagem extraordinário. Alcoólatra, paranóico, arrogante, despótico e agressivo, foi pioneiro na abordagem do homossexualismo na moderna dramaturgia americana. Não só o homossexualismo, que era seu prazer e seu tormento – sexo, álcool e devassidão consumiram heteros e homos que ele colocou no palco e na tela para exorcizar suas obsessões. O próprio Tennessee dizia que era um autor comercial e, quando solicitado, ia diretamente ao ponto – achava que ‘desesperança’ era a palavra que melhor definia sua vida e obra. A Noite do Iguana estreou em 1959 como peça de um ato no Festival de Spoleto, na Itália. O texto foi sendo reescrito e ampliado mesmo depois de estrear, off-Broadway. Em 1964, virou filme de John Huston, na seqüência de outras peças do autor que foram adaptadas por Hollywood – Uma Rua Chamada Pecado (baseado em Um Bonde Chamado Desejo), Gata em Teto de Zinco Quente, De Repente no Último Verão e O Doce Pássaro da Juventude. Kazan, Brooks e Mankiewicz fizeram belíssimos filmes adaptados de Tennessee, mesmo que o segundo, em especial, tenha edulcorado a abordagem do homossexualismo em Gata em Teto de Zinco Quente, onde não é outro o ‘problema’ do marido de Maggie, aliás, Liz Taylor, com o amigo. Liz foi campeã em número de adaptações do dramaturgo – estrelando Gata, De Repente e, mais tarde, Boom!, que Losey adaptou de um conto, não peça, de Tennessee. No começo dos anos 60, ela era a maior estrela de cinema do mundo e o seu tórrido romance com Richard Burton imediatamente o converteu num astro. Burton faz o ex-pastor religioso que virou guia turístico e sublima seu desespero de ‘descrente’ com a entrega radical ao sexo. A história se passa no México, originalmente nos anos 40, mas Huston mudou o texto, transportando-o para a época da filmagem (em espetacular preto-e-branco assinado por Gabriel Figueroa). O conflito básico dá-se entre quatro personagens – a dissoluta dona de um hotel onde se hospeda a excursão liderada por Burton e duas integrantes do grupo, uma solteirona que tenta devolver a crença do ex-padre e a adolescente ninfomaníaca (como a dona do hotel) com quem ele também tem relações. Huston dirige Ava Gardner, Deborah Kerer e Sue Lyon, a Lolita de Kubrick, respeitando a metáfora do título – a iguana é este lagarto que os garotos perseguem, prendem e, finalmente, libertam, representando as pulsões primitivas que consomem todos os personagens do escritor. Ainda não revi A Noite do Iguana, cujo DVD (da Warner) recebi ontem à tarde, mas até onde a memória registra é um filme genial. Espero não estar errado. E, como já disse no post anterior, deve ter sido em Puerto Vallarta, em conversas regadas a alcool (todos – Huston, Taylor, Burton e Ava – era muito bons de copo) que se forjou a amizade que levou o cineasta a fazer, com Liz, o fascinante Os Pecados de Todos Nós.