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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2006 | 10h54

Os Pecados de Todos Nós baseia-se em Carson McCullers, Reflections in a Golden Eye. No texto, a escritora diz a frase lapidar – um forte, em tempo de paz, é um lugar onde não acontece nada. Mas ela escreveu seu romance para mostrar justamente que a base que lhe serve de cenário revela um mundo em implosão, ou prestes a explodir. Tudo ocorre ali dentro. Pensem no ano em que Huston filmou, 1967, em plena ofensiva de expansão no Vietnã. E vinha ele com essa história nada heróica de um bando de psicóticos e tarados, num meio militar. Liz Taylor faz a mulher do oficial Brando. Ela cavalga o garanhão, Firebird, que é o sonho de desejo do soldadinho (Robert Forster), que quer cavalgar nu e Brando, como o militar que é gay enrustido, quer ser cavalgado pelo carinha. A cena em que Brando, literalmente, sai do armário durante a aula para os recrutas é coisa de gênio – tanto do diretor quanto do ator. Diretores gays têm uma compreensão ou uma cumplicidade com seus personagens que, às vezes, me desagrada. O próprio Visconti cai na autocomiseração em Morte em Veneza. Acho excessivo o Dirk Bogarde morrendo e dissolvendo-se naquela maquiagem, numa busca idealizada da beleza, quando o tema real muito bem podia ser a pedofilia, o desejo de Aschenbach pelo garoto, que poderia ser filmado bem barra-pesada. Huston era hetero, Brando tinha fama de bi. A coragem dele em representar a cena é fantástica, mas o melhor é o olhar do diretor. É tudo tão delirante, tão convulsivo, que ele não precisa exagerar. O exagero já é intrínseco ao tema e aos personagens. Um olhar, digamos, neutro aumenta o estranhamento. E tem a Julie Harris, aquela louca que corta os bicos dos seios com uma tesoura de jardinagem, e tem aquele ator que eu acho que nunca mais fez nada – Zorro David, que faz o gay de carteirinha e diz o texto que explica os tais reflexos no olho dourado do título original. Huston queria fazer Os Pecados com Montgomery Clift, que era gay assumido (mas traumatizado). Quando ele morreu, Brando foi chamado a substituí-lo e eu acho que houve um ganho, por mais que admire o Monty. O que não tenho dúvida é que o filme deve ter começado a ser gestado no México, durante a filmagem de A Noite do Iguana, em Puerto Vallarta, quando a Taylor acompanhou Richard Burton. Mas é assunto para o próximo post.