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Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2010 | 14h38

Meu Deus! Como a vida da gente fica complicada no final do ano. Só de trânsito devo ter ficado ontem umas três horas dentro de carros da empresa e táxis, tentando me deslocar nessa cidade maluca. No início da noite, estava no Centro quando peguei um táxi para ir ao Iguatemi, à pré-estreia de ‘Aparecida, o Milagre’. Pedi para o motorista pegar a 9 de Julho, que me parecia o melhor caminho, mas estava travada. Demos a volta pela Bela Vista e pelos Jardins e eu só cheguei às 21h30 porque ele, mais desesperado do que eu, cometeu uma infração e entrou numa rua na contramão. E, enquanto isso, o taxímetro só ia… ‘Aparecida’! Entrevistando hoje o produtor Paulo Thiago, fiz uma estimativa otimista de que o filme pode fazer uns 3 milhões de espectadores. Pode mesmo, mas a cristandade vai ter de se mobilizar. Sei não, mas acho que espíritas e evangélicos são muito mais militantes, nesse sentido. O filme, a reação católica à ofensiva dos espíritos no box-office – com ‘Chico Xavier’ e ‘Nosso Lar’ –, é uma choradeira só. Produção no capricho, mas direção e roteiro, apostando no cinema popular, subestimam o público e tudo tem de ser mostrado e repetido um milhão de vezes. Chorei, como todo mundo – é impossível resistir a tanta manipulação –, mas lá pelas tantas, e justamente por isso, chorava era de raiva. Pronto, desabafei e vamos aos comentários dos comentários. Aldir Mendes, sem querer ser maldoso nem viajar na maionese, pergunta se estendo ao editor/diretor João Moreira Salles meu desagrado pelos comerciais da ‘Piauí’. Nãããooooo. João como diretor é outro compartimento. Não aguento mais quando ouço falar em ‘Cabra Marcado para Morrer’ como melhor documentário do cinema brasileiro – já foi, mas não é o melhor nem do Coutinho. O melhor, para mim, é o viscontiano ‘Santiago’, de João Moreira Salles (e estamos conversados). Mário Kawai reclama que o ‘Caderno 2’ não deu uma linha da retrospectiva de Hou Hsiao-hsien que começou no CCBB. Não é para me defender, mas a matéria ficou, continua, atrelada a uma entrevista que ainda não saiu e isso complicou minha vida. Amo o cineasta taiwanês – embora seja chinês de nascimento –, graças especialmente a dois filmes, ‘Millenium Mambo’ e ‘Three Times’. Não gosto tanto de ‘A Viagem do Balão Vermelho’, que Hou fez na França, com Juliette Binoche, viajando no imaginário do curta famoso de Albert Lamorisse. Acho fascinante a forma como as três histórias de ‘Three Times’, em diferentes épocas e interpretadas pelos mesmos atores, se articulam e completam num discurso totalizante, mas não necessariamente ‘definitivo’, sobre relações. ‘A Cidade das Tristezas’ e ‘O Mestre das Marionetes’ foram os filmes que impuseram Hou ao Ocidente. O primeiro ganhou o Leão de Ouro em Veneza. Meus coleguinhas gostam de dizer que o cinema de Hou é indesligável da história de Taiwan. É verdade, e essa talvez seja uma das coisas que Jia Zhang-ke, seu discípulo assumido, absorveu dele. A repressão política e social – da China sobre Taiwan – é o tema embutido na ‘Cidade’ e no ‘Mestre’, mas o ‘meu’ Hou Hsiao-hisien, sem deixar de refletir sobre o país, é o criador de climas e ambiências de ‘Millenium’ e ‘Three Times’. As histórias não importam tanto, ou não importam nada. O que vale é o poder de observação, a sensualidade que perpassa as histórias e personagens, e que terminam por dizer tudo sobre eles sem que Hou se atrele à lógica das ações. Confesso que não prestei muita atenção se o ciclo é todo Hou ou se faltam obras importantes. Só sei que é imperdível e, para muita gente, será a descoberta  de um autor ao qual o circuito (mesmo) cinéfilo do País tem sido injustamente indiferente.

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