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Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2010 | 14h02

BERLIM – Tomei o maior susto (talvez exagere um pouco) ao assistir ontem à noite ao filme mais estranho dessa Berlinale. Duvido que suja outro igual. No final da sessão, conversando com José Carlos Avellar e Kleber Mendonça, concordamos que ‘Caterpillar’, do japonês Koji Wakamtasu, é o filme mais estranho dos últimos tempos (e não apenas da Berlinale). Querem ver? Imaginem o cruzamento de ‘Johnny Vai à Guerra’, de Dalton Trumbo, com ‘Império dos Sentidos’, de Nagisa Oshima. Elaine Guerini lembrou também ‘Encaixotando Helena’, da filha de David Lynch, Jennifer. Japão, 2ª Guerra. Uma mulher recebe o marido de volta. Representantes do Exército imperial trazem o herói e agradecem à família em nome do imperador. Entregam as medalhas. O marido perdeu braços, pernas e metade do rosto. Ficou reduzido a um tronco. A mulher surta, mas depois tem de se resignar – é o que se espera dela, é sua cota de sacrifício pelo país (e o imperador). O marido quer sexo, muito sexo. As cenas são, digamos, bizarras. A mulher sobre o tronco, mas logo o tronco, arrastando-se pelo chão, monta sobre ela. Ah, sim, ele não consegue falar. A ten são explode. A mulher bate nele. Humilha-o. ‘Caterpillar’ vira uma experiência de horror. Flashes da memória do marido revelam imagens do passado. Ele não era realmente um bom marido (batia na mulher). Não foi um herói (a bomba o atingiu quando ele estuprava uma mulher no front). Wakamatsu não está querendo dizer que seu personagem merece toda aquela desgraça, mas ele leva a dor, a humilhação e o sofrimento até o (in)suportável. E o caso não é individual. Ele usa o tronco humano para metaforizar o Japão. Wakamatasu já havia feito um filme polêmico questionando as instituições, ‘United Red Army’. Aqui, foi mais longe. ‘Caterpillar’ é o filme mais radical – pelo menos até agora – da Berlinale de 2010. Vai ser difícil o júri ignorá-lo. Num festival marcado por grandes atores, Shinobu Terajima é a primeira séria candidata ao prêmio de melhor atriz.