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Honra a um homem mau

Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2006 | 12h53

Descubro agora que Jack Palance morreu ontem, aos 87 anos. Tomei um susto – mas ele ainda não tinha morrido? Era capaz de jurar que já tinha escrito o necrológio do Jack Palance no jornal. Eu, hein? Palance fez um pequeno papel em Pânico nas Ruas, de Elia Kazan, e na seqüência substituiu Marlon Brando no papel de Kowalski na mítica montagem que o próprio Kazan fez da peça de Tennessee Williams Um Bonde Chamado Desejo. Kazan adaptou o Bonde para o cinema (com Brando) e o filme foi lançado no Brasil como Uma Rua Chamada Pecado. Até hoje não consigo escolher qual delas, se a Viven Leigh, como Blanche, em Uma Rua Chamada Pecado, ou a Annie Girardot, como Nadia, em Rocco e Seus Irmãos, oferece a melhor interpretação feminina de todos os tempos. Sou fissurado nas duas. Palance tinha aquele físico que não o predispunha aos papéis de galã em Hollywood, nos anos 50. Ele virou um vilão extraoprdinário em Os Brutos Também Amam (Shane), o western clássico de George Stevens, opondo-se, como o sinistro pistoleiro Wilson, sempre de preto, ao mocinho Alan Ladd. Isso foi em 1953, embora o filme tivesse sido rodado dois anos antes. Dois anos mais tarde, em 1955, Palance iniciou a parceria com Robert Aldrich, marcada por dois filmes muito importantes dos anos 50 – A Grande Chantagem, com roteiro de Clifford Odets, sobre os bastidores de Hollywood, e Morte sem Glória (Attack!), um dos grandes filmes de guerra do cinema. Em ambos, o que menos importava era a beleza do ator e sim, a sua truculência, a violência que ele era capaz de levar para fora, contra os outros, mas também de dirigir para dentro, num movimento de autodestruição, e nisso o Palance era muito bom. Nos anos 60, Godard, na França, fez dele o produtor do filme dentro do filme de O Desprezo e Palance dizia sua frase famosa – “Sempre que eu ouço falar de cultura saco da caneta para assinar o cheque.” Na seqüência, ele apresentou na TV o programa Acredite, Se Quiser, o que aumentou sua popularidade. Em 1992, recebeu o Oscar de coadjuvante por Amigos, Sempre Amigos, paródia de western na qual tirava sarro da própria criação como Wilson. Naquele ano, ele esteve no Brasil, trazido pela Paris, que distribuía o filme de Ron Underwood. Deu uma coletiva no Maksoud Plaza que foi um horror. Estava irritadiço, ou assim pareceu, numa má vontade que dava (des)gosto. Entre outras coisas, disse que não ganhou dinheiro no cinema e que tinha mais prazer como criador de gado, em suas duas fazendas. Uma vaca valia mais que um filme para ele e tanto fazia ser dirigido por um mestre como Stevens ou um diretor mediano como Underwood. Todos os diretores se parecem, dizia. No retrospecto, essa imagem, que foi a última dele que me ficou, fecha com a que o Palance criou na tela. E o mais curioso, para mim, é que pela segunda vez, hoje, falo no cinema de Aldrich, diretor que tanto admiro. Cheguei a dedicar ao Aldrich um capítulo do livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício. Ele não era como os outros, Stevens não era. Mas há que fazer justiça ao homem mau que Palance foi (na tela). Entre outros gêneros, ele freqüentou o épico e foi Átila para Douglas Sirk e também o gladiador de Barrabás, de Richard Fleischer, filme pelo qual, confesso, tenho uma queda.