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Honesto e pungente

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2010 | 13h43

Ator de Martin Ritt, ‘Um Homem Tem Quatro Metros de Altura’, e Robert Parrish, ‘Irmão Contra Irmão’, John Cassavetes já havia lançado os fundamentos de sua estética em ‘Shadows’, de 1960. Nos anos seguintes, ele participaria de filmes importantes – ‘Os Assassinos’, de Don Siegel; ‘Os Doze Condenados’, de Robert Aldrich; ‘O Bebê de Rosemary’, de Roman Polanski -, mas em geral usava sua carreira em Hollywood para financiar a produção indie em Nova York. Cassavetes bem que tentou ser diretor emk Hollywood, logo depois de ‘Shadows’. Fez ‘Too Late Blues’, A Canção da Esperança, com Bobby Darin e Stella Stevens, que não é pior filme de jazz, e ‘Minha Esperança é Você’ (A Child Is Waiting), com produção de Stanley Kramer, que a Versátil está lançando em DVD. Consta que foi o filme que traumatizou Cassavetes e o convenceu de que não conseguiria ser ‘autor’ no cinemão. O filme investiga o universo dos downianos. Burt Lancaster é diretor de uma instituição para crianças excepcionais, ou retardadas (naquela época ninguém falava em síndrome de Down). Judy Garland é a nova professora de música. Judy já havia feito um grande papel em outro filme de Stanley Kramer, ‘Julgamento em Nuremberg’. A tal professora tem muito dela. É neurótica, carente. Toma sob sua proteção um garotinho a quem quer dar ‘amor’. Boas intenções à parte, a personagem é egoísta e talvez esteja mais preocupada com as próprias carências, mas nem se dá conta disso. É o que lhe diz Burt Lancaster numa cena brutal, quando a leva para conhecer a ala da instituição que abriga os adultos que foram crianças amadas e que outros adultos, seus pais e educadores, não tiveram coragem nem disciplina para exigir delas. Faz muito tempo que não vejo ‘Minha Esperança É Você’, acho mesmo que nunca revi o filme desde a estreia. Sua fama não é muito boa, um pouco por causa do produtor, que remontou o filme à revelia do diretor (e Cassavetes nunca o perdoou por isso). Mas me lembro perfeitamente da cena e do impacto que me produziu. Na época, havia ficado impressionado também com a crueldade de Damiano Damiani, que, querendo mostrar o tipo de mau caráter que Pierre Bricê interpretava em ‘O Batom’, mostra a garota de quem ele se aproveitou, explorando sua carência afetiva, e ela era paralítica. Já que o blog tem, para mim, esse caráter confessional, tenho de admitir que esses filmes me calavam fundo porque eu era adolescente, ansioso e inseguro como todos, e tendo um defeito físico devia me angustiar mais ainda, antecipando as dores e decepções futuras. No final, mas espero que ainda não seja o fim,  a vida tem me dado muito mais do que eu imaginava. Não revi ‘Minha Esperança É Você’. Curioso, fui procurar o que Leonard Maltin diz em seu guia. Para ele, ‘Minha Esperança É Você’ é honesto e pungente. Será?

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