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Luiz Carlos Merten

24 Maio 2010 | 05h30

CANNES – Está amanhecendo no Brasil, mas na França, como estou cinco horas à frente, a manhã já vai longe. Embarco à tarde para Paris, onde fico três dias, voltando quinta-feira para o Brasil. Fiquei até de madrugada escrevendo os textos para o jornal, para o portal e para o blog. De manhã cedo, saí para comprar os jornais. Queria ver como a imprensa francesa recebeu as deliberações do júri de Tim Burton. Encontrei a Rue d’Antibes, a principal de Cannes, deserta. Desci até a Croisette e já começou a ‘desmontagem’ do festival. Tirando a agitação localizada, o restante da cidade parece dormir, apesar do sol alto. É que é feriado (Pentecostes), aqui. ‘Le Figaro’ detestou o filome de Apichatpong Weerasethakul, ao qual atribuiu a Palma de Chumbo, dividida com o filme do russo Sergei Loznitsa. O jornal define ‘Uncle Boonmee’ como tedioso, incompreensível e alucinatório. O jornal, inclusive, faz um trocadilho no título. Palme d’Or vira Palme Dort (a Palma dorme). ‘Le Figaro’ não perdoa nem o prêmio de interpretação para Juliette Binoche, uma heroína nacional. Acha antiético que sua foto ornamentasse o cartaz e ela tivesse um filme em competição, mas reconhece que, ao premiar Juliette, o júri tomou uma posição política. Durante todo o festival, Juliette virou militanjte pela libertação do cineasta Jafar Panahi, preso no Irã por suas ideias. ‘Libération’ foi na contramão de ‘Figaro’ e colocou a Palma nas nuvens – ‘Rêve d’or por Weerasethakul’, Sonho de ouro para o autor tailandês. Mas ‘Libé’ também achou excessivo o discurso de agradecimento de Juliette, que ela própria minimizou, na coletiva, dizendo não se lembrar da sua fala. Juliette agradeceu aos filhosd, aos pais, aos homens que a amaram (e que amou) e disse que ghostaria de se casar um dia (recado para Benoit Magimel, pai de sua filha Hanna?). A parte mais polêmica foi a dos pais. Juliette agradeceu à mãe, que a criou sozinha, mas disse que já perdoou seu pai. Um pouco de sobriedade e politesse estaria mais de acordo com a interpretação da atriz (e com o próprio filme que lhe valeu o prêmio), segundo o jornal. No limite, ‘Libé’ selecionou cinco filmes para dar a cara de Cannes em 2010. Três foram fartamente abordados no blog e no jornal – ‘Uncle Boonmee’, ‘Tournée’ e ‘Rebecca H’ (de Lodge Kerrigan). Os outros – ‘Kaboom’, de Gregg Araki, vencedor da Palme Queer (desculpem pela confusão solbre a filmografia anterior do cineasta), e ‘Benda Bilili!’, documentário (impactante) de dois franceses, Renaud Barret e Florent de la Tullaye, exibido na Quinzena dos Realizadores. Eles acompanham outra tournée, a de um grupo de músicos congoleses atingidos pelo virus da pólio e, portanto, paralíticos. Da pobreza nas ruas de Kinshasa à consagração na Europa, o filme não deixa de ser comparável a ‘Un Homme Qui Crie’, como retrato de uma África miserável – o pai do filme vencedor do prêmio do júri vende o próprio filho ao Exército -, em busca de uma identidade. Um homem que grita vira vários. Muito interessante, se a gente para e pensa.