Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Homens e deuses

Cultura

Luiz Carlos Merten

18 Maio 2010 | 14h57

CANNES – Quelle journée, que dia! Assisti pela manhã ao terceiro concorrente francês, ‘Des Hommes et des Dieux’, de Xavier Beauvois e confesso que fiquei decepcionado. O filme começa muito bem e tem uma primeira hora que me animou bastante. Descreve o cotidiano de uma abadia, numa área de conflito, delimitada com uma comunidade árabe. Os religiosos vivem em harmonia com seus vizinhos, respeitando o Corão. Terroristas desestabilizam a ordem e serenidade deste mundo. Adorei os atores, muito bem escolhidos – Lambert Wilson e Michel Lonsdale, com aquela dicção fabulosa, à frente -, e o fato de o filme ser muito falado me fez sonhar com Manoel de Oliveira e Abbas Kiarostami (‘Copie Conforme’). Essa primeira parte é tanto melhor porque alterna longos silêncios que me lembraram aquele belíssimo documentário premiado há três anos (acho) no É Tudo Verdade, ‘O Grande Silêncio’. Estava achando maravilhoso, mas aí o filme deu uma derrapada feia e degringolou. Como não tinha lido nada, não sabia que a história era real e talvez tenha isso isso que coibiu Xavier Beavois. Ele deve ter ficado com medo de desrespeitar os religiosos que foram mortos, até hoje não se sabe por quem. Enquanto eles manifestam dúvidas e ansiedades, o filme me tocou muito. Quando cerram fileiras e viram cordeiros de Deus no sacrifício, acho que o filme vira hagiográfico e perde bastante o interesse (pelo menos para mim). Mas, para ser honesto comigo mesmo, tenho de confessar que justamente nesta segunda parte o diretor cria uma cena ‘musical’, que é justamente a chave para a compreensão do título. Se a palavra expressa dúvidas e, depois, certezas, a música promove a comunhão de homens e deuses, a elevação dos primeiros ao plano dos segundos. Chorei, mas a emoção não durou muito e eu terminei rolando ladeira abaixo com M. Beauvois. Sobre esse diretor, não resisto a contar uma história. Anos atrás, ele esteve no Brasil, na Mostra, acompanhando Chiara Mastroianni. Estavam juntos, não sei se continuam. Ela ainda era somente a filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni. Com o maior tato, perguntei se ela se importasva de falar sobre seus pais. Xavier se encrespou. Disse que não e ela interveio. Não me esqueço de Chiara -, ‘Arrête, Zavier’, Para, Xavier e o X virava Z. Hoje, fui espiar o começo da coletiva só para ver Michel Lonsdale. Xavier deu uma envelhecida legal. Perdeu o ar juvenil que tinha há relativamente poucos anos. Tinha vontade de pedir ‘Arrête, Zavier’, para que ele parasse de falar e eu pudesse ouvir, enfim, o grande Lonsdale.

Encontrou algum erro? Entre em contato