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Luiz Carlos Merten

13 Setembro 2011 | 23h43

King Vidor deve sua fama aos filmes que fez ainda no período silencioso. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, diz que a era das obras-primas começa quando ele entra para a Metro, em 1923. ‘Big Parade’, ‘The Crowd’, ‘Show People’. Com o sonoro surgem ‘Hallellujah’, ‘Street Scene’, O Turbilhão da Metrópole, e ‘Our Daily Bread’, O Pão Nosso de Cada Dia. E, logo, os melodramas, como ‘Stella Dallas’, Mãe Redentora, e os westerns, como ‘Atiradores do Texas’. Confesso que tenho imensa curiosidade por um filme que nunca vi, ‘A Cidadela’, produzido por Joseph L. Mankiewicz e adaptado de um escritor hoje esquecido, mas que foi muito popular nos anos 1930, 40 e 50, A. J. Cronin. O ‘meu’ King Vidor situa-se no período de uma década, entre 1946 e 56, quando ele assina seus filmes mais apaixonantes – ‘Duelo ao Sol’, ‘Fúria do Desejo’, ‘Homem sem Rumo’ e ‘Guerra e Paz’. Muita gente o acusa de haver edulcorado Leon Tolstoi, como Richard Brooks também teria edulcorado Dostoievski, em ‘Os Irmãos Karamazov’. Bobagem. A transcriação, transposição de mídias, muitas vezes faz com que os diretores tenham de trair para permanecer fieis aos autores dos livros que colocam na tela. A batalha de Borodino em ‘Guerra e Paz’ filtra Tolstoi por Stendhal – é Fabrizio del Dongo atravessando o campo de batalha na ‘Cartuxa de Parma’. Aquilo não é apenas lindo, visualmente, como revela uma profunda compreensão do fenômeno da guerra e seu efeito sobre as pessoas. E é curioso como o cineasta ‘social’ do começo da carreira, o que denunciava a exploração dos pobres e a desumanização das metrópoles, tenha se transformado num radical defensor do indivíduo face às civilização. Kirk Douglas é o homem sem estrela, Without a Star, do western agora resgatado em DVD. Ele se movimenta sem rumo num Oeste cujos espaços não são mais abertos e as amplas planícies, recortadas, passam a ser delimitadas pelos novos proprietários com arame farpado. Todos os conflitos do filme – Kirk Douglas indo parar na fazenda de Jeanne Crain – envolvem a sexualidade que as heroínas do rei Vidor sempre gostaram de exercitar, mesmo a última delas, a bíblica rainha de Sabá, Gina Lollobrigida em ‘Salomon and Sheba’, mas o fundo aqui é o mítico conceito de liberdade perseguido por caubóis solitários como Douglas. Faz tempo que não vejo ‘Homem sem Rumo’, nem na TV, paga ou aberta, mas é um filme que sempre me atraiu e do qual guardo a lembrança de cenas devastadoras, entre elas justamente a do herói marcado pela surra de arame. ‘Homem sem Rumo’ é de 1955, o mesmo ano de ‘Um Certo Capitão Lockhart’, A Man from Laramie, de Anthony Mann, com James Stewart, com o qual guarda algumas similaridades importantes. Em ambos, o ‘mocinho’ é humilhado, marcado, mas consegue dar a volta por cima, mesmo que permança, basicamente, um inadaptado. Não sei se muitos de vocês – quantos? – conhecem o western de King Vidor, só sei que pode ser uma experiência e tanto vê-lo, o que recomendo, vivamente.

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