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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2006 | 14h05

Espero não incorrer em nenhum erro de informação no que vou dizer aqui, mas o documentário Adolfo Celi – Um Homem para Duas Culturas é um dos filmes que quero ver na 30ª Mostra. Já vi muita coisa programada por Leon Cakoff e Renata Almeida, mas não o filme dirigido pelo filho do Adolfo, Leonardo Celi. O curioso é que, na terça, quando visitei o set de Chega de Saudade, o novo filme de Laís Bodanzky, conversei com a Tônia Carrero, que foi casada com ele, e perguntei onde o Celi tinha morrido, porque não me lembrava na hora. Foi em Sienna, ela disse, em 1986, na noite de estréia de uma peça formada por fragmentos de textos de Dostoievski, que ele montava para a companhia de Vittorio Gassman. Não sei, mas acho que poderemos ter, aí, um novo A Mochila do Mascate, feito pela filha de Gianni Ratto e que também tratava de outro personagem fabuloso, que fez, como Celi, a ponte entre duas culturas, a italiana e a brasileira. Celi já era ator e diretor na Itália quando acompanhou o lendário parceiro de Totò, Aldo Fabrizzi, numa filmagem na Argentina e ficou. Dali veio para o Brasil, onde se estabeleceu primeiro como diretor teatral, ajudando a criar o TBC e profissionalizando o teatro brasileiro. Na Vera Cruz, da qual foi um dos idealizadores, fez filmes como Caiçara, com Eliane Lage, e Tico-Tico no Fubá, sobre Zequinha de Abreu, com Anselmo Duarte e Tônia. A Vera Cruz, na contracorrente do neo-realismo que Nelson Pereira dos Santos traria para o cinema brasileiro com Rio 40 Graus, era um projeto da burguesia paulista e, como tal, foi rejeitada pelos nacionalistas de esquerda, que achavam aquele cinema alienado, como alienado também era o teatro que ele fazia, mesmo que fossem autores importantes (Pirandello, Shakespeare, O’Neill, os gregos). Em 1963 ou 64, Celi interpretou um milionário no filme O Homem do Rio, que Philippe De Broca realizou no País, com Jean-Paul Belmondo. Celi fez o caminho inverso. Voltou à Europa para a dublagem, mas era duro, naquela época. Recebeu algumas propostas, aceitou e ficou. Virou vilão de carteirinha (até em filme de James Bond, 007 Contra a Chantagem Atômica), voltou a dirigir para teatro, com os camaradas Luciano Salce e Vittorio Gassman, com algumas vindas ao Brasil, para, aqui, também dirigir (e penso que atuar, mas não tenho certeza). Já é mais do que tempo de se reavaliar a verdadeira importância de Adolfo Celi para a cultura brasileira. E o homem deve ter sido sedutor, pois casou-se com duas divas, Cacilda Becker e Tônia Carrero.