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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2008 | 17h11

Tenho de admitir que não conheço a obra de Anthony Mann tanto quanto gostaria. Sou capaz de descrever plano a plano sua memorável série de westerns com James Stewart e recitar os diálogos de ‘El Cid’, boa parte deles adaptada pelo roteirista Philip Yordan do ‘Cid’ de Corneillle (‘A moi, comte, deux mots…’). Já escrevi aqui, o que pode até parecer absurdo, que o desfecho de ‘A Queda do Império Romano’ – Lucilla/Sophia Loren clamando pelos cidadãos de Roma, em meio à multidão, enquanto o império é achincalhado num leilão para ver quem dá mais – é o ‘Terra em Transe’ de Mann e cena em questão a mais glauberiana que Glauber não filmou. Sempre me pergunto – terá Glauber visto o filme de Mann? ‘A Queda’, afinal, é anterior a ‘Terra em Transe’. Mera coincidência? Pode ser, mas ver Mann aplicar o princípio da descontinuidade narrativa numa superprodução de Hollywood é uma coisa que sempre me impressiona. Dito isso, há um Anthony Mann que desconheço e não por falta de tentativas. Conheço só de ouvir falar a excelência de seus thrillers dos anos 40 (‘Mercado Humano’, ‘Moeda Falsa’, ‘Entre Dois Fogos’) e, se há um filme que adoraria ver, é ‘A Sombra da Guilhotina’, a incursão de Mann pela Revolução Francesa, a partir da queda de Robespierre, que ‘Cahiers du Cinéma’ sempre colocou no panteão das obras-primas. “Winchester 73′, que revi outro dia na TV paga, abre o ciclo dos grandes westerns do autor. Foi a primera incursão do cineasta pelo gênero com James Stewart e a parceria dos dois é considerada o que de mais clássico e puro o bangue-bangue produziu. O filme é de 1950, exatamente. Nos 40, Hollywood já produzira filmes em esquetes como ‘Um Carnet de Baile’, de Julien Duvivier, acompanhando as memórias de uma mulher que revisa sua vida ao se lembrar dos homens que com ela dançaram neste baile que remete à época de sua juventude. Em ‘Winchester 73’, o rifle de repetição do título passa de mão em mão, mas o eixo do filme é o conflito entre esses dois irmãos, como modernas representações de Caim e Abel. James Stewart caça o irmão bandoleiro que matou o próprio pai e o relato vai das mesas de pôquer de Dodge City às pradarias infestadas de índios, um deles um jovem Rock Hudson, que, num determinado momento, vira um dos donos da Winchester procurada de James Stewart, usando-a para atacar o destacamento da Cavalaria (onde a garota de saloon Shelley Winters e seu namorado covarde procuraram abrigo). Já escrevi num post anterior que ‘Winchester 73’ era um dos filmes preferidos do crítico e diretor Maurício Gomes Leite. Tudo aqui é seco, simples e direto, concluindo num duelo nas montanhas, cenário que Mann adorava – pela aspereza, pelas rugosidades – e de certa forma voltou a utilizar no epílogo de ‘O Preço de Um Homem’ (The Naked Spur), dois anos mais tarde. É curioso que, em sua evolução, ao adotar o formato cinemascope, ampliando a paisagem – e a profundidade de campo de seus filmes -, o ‘clássico’ Mann foi flertando cada vez mais com a psicanálise. Além do ódio entre irmãos e da sombra do pai, seus westerns e épicos vão tratar de temas como o incesto, em ‘Almas em Fúria’. Essa complexidade adquirida não leva aos delírios barrocos e crepusculares de King Vidor nem Nicholas Ray. A marca de ‘Winchester 73’ é o rigor – a perfeição a que se referem Bertrand Tavernier, Jean-Pierre Coursodon e Jean Tulard, todos tietes deste diretor que foi, e ainda é, um dos maiores do cinema. Por mais que tenha amado (re)ver ‘Winchester 73′, creio que “O Preço de Um Homem’ e ‘Um Certo Capitão Lockhart’ (The Man from Laramie) conseguem ser ainda melhores. Mann foi casado com Sara Montiel. Terá sido por amor a ela que fez ‘El Cid’? É a pergunta que sempre me faço e quero acreditar que sim.