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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2009 | 18h53

Alguém me pediu há pouco informações sobre os westerns de Franco Nero, acrescentando ao pedido um desejo – onde e como comprar esses filmes? Não me lembro mais exatamente em que ano, se no passado ou no anterior, mas estava em Cannes, indo ao Hotel Majestic, sede de diversas assessorias onde se marcam as entrevistas. Fica em frente ao palais. Vanessa Redgrave e Franco Nero entravam num carro. O segurança me barrou, eu arrisquei chamá-la e a Vanessa, que tinha se impressionado muito com meu defeito físico quando a entrevistei longamente em São Paulo, me reconheceu, foi simpática, o que me valeu um aperto de mão do Django. Achei-o melhor do que em ‘Duro de Matar 2’, de Renny Harlin, no qual fazia o vilão militar, cujos asseclas explodiam o avião para criar o pânico no aeroporto, indispensável ao seu plano de evasão. Nero estava gordo, fora de forma no filme. Estava inteirão ao lado da mulher. Surpreendi-me que ainda estivessem juntos. Afinal, ‘Um Lugar Tranquilo no Campo’, de Elio Petri, e ‘Camelot’, de Joshua Logan, que fizeram juntos, no começo do romance – e ele era meio ridículo, cantando, na pele de Lancelot du Lac -, datam de 40 (e mais) anos atrás. Franco Nero sempre foi um homem bonito, de uma beleza viril, e o curioso foi como diretores inteligentes souberam usar seus olhos claros para criar o que talvez fosse um paradoxo, um olhar sombrio, o que conseguiam às vezes por meio de truques – os mais frequentes sendo o chapéu desabado ou então o contraste criado por uma barba mal feita. Nero já havia interpretado dois ou três westerns (‘Texas, Adeus’ e ‘Tempo de Massacre’, de Ferdinando Baldi e Lucio Fulci), quando Sergio Corbucci criou para ele a sensacional abertura de ‘Django’ – o pistoleiro de capa preta que chegava à cidadezinha embarrada, puxando os caixões para neles colocar os homens que ia matar. Não descarto que Corbucci tenha visto Glauber, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, que é anterior, porque a roupa de Django, ali pelo menos, tem algo da composição cênica de Antônio das Mortes. (Reciprocamente, Glauber admitia que se havia inspirado em westerns, inclusive italianos, para o ‘Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro’). Nero viveu mais vezes como Django na tela – ‘A Volta do Vingador’, ‘Não Dispara, Mata’, assim como mais tarde fez, também para Corbucci, a série ‘Companeros’ e o ‘clássico’ ‘Keoma’, do ídolo de Quentin Tarantino, Enzo G. Castellari (com quem fizera o thriller ‘O Vingador Anônimo’/Il Cittadino si Ribella, contemporâneo de ‘Desejo de Matar’, com Charles Bronson). Nero foi o Don José de ‘O Homem, o Orgulho, a Vingança’, transposição para o spaghetti western de ‘Carmen’, com Tina Aumont no papel da cigana sedutora. O filme, até onde me lembro, era barroco, à Leone, mas não estou seguro que se chamasse assim no Brasil. Estou traduzindo direto do italiano, ‘L’Uomo, l’Orgoglio e la Vendetta’. O diretor era um certo Luigi Bazzoni – não sei por que, mas a sonoridade faz com que determinados nomes permaneçam comigo. E existem os clássicos definitivos de Franco Nero, seus filmes com Damiani Damiani, ‘Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República’ e ‘Só Resta Esquecer’. Até com Buñuel e Fassbinder ele filmou – ‘Tristana, Uma Paixão Mórbida’ e ‘Querelle’, adaptados de Pérez Galdós e Jean Genet. Muitos desses filmes saíram em DVD no Brasil. Ainda outro dia, numa dessas lojas do centro, cheguei a ter na mão o DVD de ‘Django’. Fiquei tentado a comprar, nem que fosse só pelo começo… É só procurar, digo ao amigo que busca os spaghetti westerns do sr. Vanessa Redgrave. Um homem que seduz – e prende – uma mulher daquelas merece respeito. Aliás, estou seguro que ele fez um filme chamado ‘Gente de Respeito’, acho que do Luigi Zampa. Estou adaptando o título do filme para criar o do post.