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Luiz Carlos Merten

07 Maio 2007 | 08h55

Preciso postar alguma coisa sobre Homem-Aranha 3, nem que seja para dar chance a vocês. Deve ter gente querendo falar do terceiro filme da série do herói da Marvel. E eu gosto do filme do Sam Raimi! Estava sendo sincero quando escrevi no Caderno 2 que acho que Raimi consegue o prodígio de fazer cinema de autor dentro do cinemão – e trabalhando com um super-hiper-blockbuster. Não sei se deixei claro para vocês, quando escrevi de Tóquio, ao ver o filme pela primeira vez – Sam Raimi parece um nerd. Certinho a mais não poder – bem, para dizer a verdade, Tobey Maguire é ainda mais –, ele nem parece que faz esses filmes. Não dispensa terno e gravata, mas não é um cara que transmita uma idéia de elegância. É mais formal, não sei se vocês me entendem. Parece um contador. Isso me leva ao Tim Burton, que fez Batman 1 e 2 e é outro que luta para fazer cinema de autor em grande escala. Gosto mais do Sam Raimi, dele, inclusive – fazer o quê? Burton me incomoda um pouco pelo outro lado. Faz questão de ser outsider de luxo. Já o entrevistei duas ou três vezes e ele sempre chega com cara de sonado e um cabelo que parece que não vê pente há meses. É estilo – se você reparar nas roupas, vai ver que tudo é de grife. Mocassins podres de chique. Mas a forma exterior é do rebelde, enquanto a do Sam Raimi é inversa – do ‘integrado’. Aparências à parte, eu gosto do Homem-Aranha 3 naquilo que a maioria deplora. Acho que se trata, realmente, de um filme de personagens. Tem toda aquela patrafernália de efeitos e o de Sandman levantado-se da areia foi tão difícil que demorou três anos e meio para ser feito – a produtora Laura Ziskin disse que foi a primeira coisa a ser trabalhada e a última a ficar pronta; não havia tecnologia para criar o efeito; programas tiveram de ser inventados e, como ela diz, se o prazo fosse maior, e houvesse mais dinheiro, a equipe ainda estaria trabalhando em Sandman –, mas o que eu gosto é dos personagens. Peter Parker entregando-se ao lado negro, obcecado para vingar a morte do tio, seu pai substituto; Harry querendo vingar o pai e ouvindo a revelação do mordomo, seu pai substituto; o Homem de Areia, desesperado para salvar a filha. Várias histórias de paternidade. E as mulheres – Mary Jane decepcionada, fragilizada e ciumenta; a tia, sempre tão humana; e Bryce Dallas Howard lançando aquele olhar de desculpa a Mary Jane, ao se sentir usada por Peter para espicaçar a (ex?)namorada. É um filme sobre paternidade, amizade, perdão. Gosto dessa superposição de dramas e, se ela desequilibra a narrativa – não acho, mas várias pessoas vêem assim –, me encanta a idéia do filme imperfeito por generosidade, por ter o que dizer. Afinal, não defendemos tanto a imperfeição de Rossellini? Não defendo tanto os excessos do perfeccionista Visconti? Olhem – adorei o Homem-Aranha 3 e adorei ter conversado, em Tóquio, com Ivan Raimi. Já havia conversado outras vezes com Sam (pelo telefone, a propósito de Um Plano Perfeito; ao vivo e a cores, pelo primeiro Spider Man), mas não conhecia o irmão, com quem ele ele criou as histórias da série. Não sei qual dos dois conhece mais quadrinhos. E o irmão, que gostou do papo sobre paternidade, me disse – Sam foi contratado para fazer três filmes. Eles formam uma trilogia, mas foram construídos passo a passo. Existem fios no 1 e no 2 que previam o 3, mas os produtores e o estúdio tiveram de ser persuadidos de que o fecho para os personagens era este. A história dessas pessoas termina aqui. A série poderá continuar. A sensação é de que todos, o diretor e o elenco, estão aliviados, libertos. Vão poder pensar em outras coisas. Sam Raimi não confirma nem desmente, mas talvez, se houver um quarto Spider Man, ele não esteja no comando. O motivo – Tolkien, o Hobbit, que ele talvez realize. Vai, Sam, vai viver outras fantasias. Eu, pelo menos, já estou sedento por elas. O post ficou grande, mas só mais uma informação. Procurem no portal do Estado o trailer comentado. Eu faço o comentário, mas não estou me promovendo (um pouco, talvez). Estou promovendo a iniciativa do portal.