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Luiz Carlos Merten

20 Dezembro 2008 | 09h57

Meu editor me havia encomendado um olhar ‘cinematográfico’ sobre o show de Madonna. Engraçado é que escrevi meu texto de improviso, da prória cabine de imprensa de Morumbi, sem ter lido os comentários de vocês. ‘Nem de graça’, ‘nem se me dessem o ingresso e me levassem ou trouxessem de helicóptero’. Terminei escrevendo um texto – na edição de ontem do ‘Estado’ – que parece responder, antecipadamente, a essas críticas. Disse que só resiste ao efeito Madonna quem não vê o show, o ‘Sticky and Sweet Tour’, que ainda tem hoje e amanhã encerra, aqui no Brasil, a gira internacional da artista. só que, quem não vê, jamais saberá o que perde. Jotabê Medeiros, que havia assistido ao show em Buenos Aires, disse que lá não houve nem metade da vibração daqui. O primeiro show, na quinta, foi uma celebração. O público – 67 mil pessoas – dançava como se estivesse numa balada. Ontem, passei o dia correndo e vendo filmes – ‘Félix e Lola’ e ‘Sete Vidas’ -e redigindo textos, nem tive tempo para o blog. Empreguei meu olhar ‘cinematográfico’, como queria o Dib (Carneiro Neto) sobre o mito. Madonna, que estreou como diretora em ‘Filth and Wisdom’, em Berlim, em fevereiro, fez um filme que me surpreendeu e do qual gostei bastante. Um filme que manifesta sua admiração por Godard (‘Masculino Feminino’), que é transgressivo, provocado e anti-consumista, possui um interessante background social sobre a Inglaterra contemporânea e é pequeno, experimental, na sua mistura de documentário e ficcção – em resumo, um filme autoral. O show é outra coisa – Hollywood puro. Um mega-palco com efeitos de luz, som e trucagens que enviam a Kubrick e a Spielbeg. Na abertura, antes mesmo que Madonna apareça, existe o cubo – que se abre, desdobra, multiplica e vira os numerosos telões que permitem que o público acompanhe tudo à distância. O cubo é feito de luz e emissão de imagens, uma coisa lisérgica, que evoca o ‘2001’ de Kubrick. O restante do show é pura pirotecnia. É para ser visto à distância. Mesmo na pista, onde estava, ela era pouco mais doque um ponto, que se podia seguir/identificar pela cabeleira platinada. Madonna não é uma grande cantora e, em ‘Sticky and Sweet’, não sei nem mesmo se ela canta em cena, ou se é tudo playback. Ela deve cantar alguns números, mas não muitos. Na maior parte do tempo, está fazendo todo tipo de acrobacia, rolando no chão, pedurando-se em barras, pulando corda – nenhuma voz conseguiria sair nítida, nem a melhor. Madonna teria de ofegar e o som, perfeito, permitiria que se observasse isso. Se Madonna não é uma grande cantora, o que é, então? Uma grande performer, uma entertainer. Sua interação com o corpo de baile é a própria essência do espetáculo. Madonna interage o tempo todo com o grupo. São poucos os momentos em que é individualizada nos telões – a a uma considerável distância, para que se possa admirar a musculatura do corpo, o bumbum empinado e durinho que salta dos shortinhos que usa. A câmera nunca está tão perto para que o close mostre suas rugas, que ela talvez as tenha, aos 50 anos. O pique, de qualquer maneira, é de uma garota e, nestes 25 anos que já duram sua carreira, ela não parecia mais energética. Mais do que profissional, o show é perfeccionista. No primeiro número, Madonna entra com um garota que repete seus gestos e interage com ela. Depois, ela interage com um, com dois, com muitos – dançarinos e dançarinas. O princípio da dança é a repetição, às vezes até robotizada, Busby Berkeley na veia. Em outro número, é tratada como boneca, como marionete – ‘Fellini Casanova’? E sempre o sexo – em outro momento, ela provoca e beija na boca sua clone vestida de noiva. Havia visto o show de Madonna há 15 anos. Achei o novo show ainda melhor como espetáculo. É uma artista-camaleão, que muda constantemente e renova seu mito. Isso tem a ver com a sociedade do espetáculo em que vivemos. O Morumbi veio abaixo com a imagem de Obama no telão. A Europa, onde ela vive a maior parte do tempo – em Londres -, reage aos imigrantes? Madonna traz, para um número maravilhoso, uma verdadeira orquestra de ciganos. E o clima de liberação que tomou conta do estádio foi como imagino que tenha sido Woodstock. Não apenas homens e mulheres trocavam carícias tão íntimas que você ficava em dúvida se não estariam t…? O síndico Tim Maia teria se horrorizado com o vale-tudo, incluindo os amassos de homens com homens e de mulheres com mulheres. Como espetáculo mega, nunca vi nada parecido. E não estou nem falando sobre as referências visuais. Assim como lancei meu olhar ‘cinematográfico’, como me foi pedido, minhas colegas Maria Hirszman e Camila Molina teriam descoberto o conceito visual que misturava quadrinhos e recriações de quadros de pintores famosos, em instalações que mudavam o tempo todo. Exagero, pode até ser. Madonna já anuciou que não quer mais ser atriz. Diz que o público, seu público, vai vê-la e não aos filmes nem supostas personagens, e isso prejudica esforços muitas vezes sérios de diretores empenhados. Ela quer ser agora só diretora, autora. Se os próximos filmes forem tão bons quanto ‘Filth and Wisdom’, com o genial Eugene Hütz, da banda Gogol Bordello, vou virar tiete da autora (o que nunca fui da cantora). Eu devia ser o único a não saber cantar seus hits em todo aquele estádio. Não importa. Estava estarrecido, de olhos bem abertos para esse assombroso mundo novo que as tecnologias abrem para os artistas. Lembrei-0me de Erico Veríssimo, do seu monumenta ‘O Tempo e o Vento’, quando o cético tio Bicho houve a descrição do comunista – é o Vasco? – sobre A Passionária que voi discursar na Guerra Civil Espanhola e comenta que aquilo é a Nossa Senhora vista por um ateu. Por um momento pensei naquilo. O nome é sugestivo, Madonna, como aquelas que Rafael pintava com o ‘bambino’. Só que a Madonna que vi anteontem celebra o paganismo. Eros e Hollywood na veia, que combinação!