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Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2010 | 11h57

Talvez seja uma temeridade o que vou escrever. Brasília realiza hoje à noite a cerimônia de premiação do 43.o festival. Estive lá durante dois dias, na quinta e sexta, assisti aos filmes de Eryk Rocha (‘O Transeunte’) e Tiago Mata Machado (‘Os Residentes’), participei de debates, revi amigos, foi legal. Mas estava tão desligado que conversei com Anna Muylaert e Kleber Mendonça sem me dar conta de que ambos integram o júri que hoje atribui os Candangos aos melhores de 2010. Digo que o que vou escrever é uma temeridade porque não vi os demais concorrentes – ‘Amor?’, de João Jardim, vou ver sexta-feira numa sessão especial aqui em São Paulo –, mas assisti aos filmes que queria e eles não me decepcionaram, pelo contrário. Havia sido convidado para participar do júri, mas tive de declinar. Agora me arrependo. Pode até ser que termine gostando mais de algum dos outros filmes (que não vi), mas gostaria de estar sendo guerreiro pelos trabalhos de Eryk e Tiago. A decantada plateia politizada de Brasília debandou do segundo e, lá pelas tantas, clamava por Júlio Bressane, o que faz parte do folclore do festival. Deixemos Bressane em paz, mas eu adoraria enfiar o filme de Tiago goela abaixo daquela gente. Querem recherche? Querem invenção? Então tomem. ‘Arrangiatevi’. Mas não seria só pela provocação. O diálogo truncado do casal é um momento maravilhoso. E apesar das diferenças, justamente por elas, existem instigantes pontos comuns entre os filmes de Eryk e Tiago. Estou acrescentando esse post já refeito das angústias da noite de ontem, da depressão momentânea que me produziram as mortes de Irvin Kershner e Mario Monicelli e também o filme de Woody Allen, ‘Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos’. O novo Woody, que amanhã faz 75 anos – o diretor, não o filme, claro – é mais interessante do que me pareceu em Cannes, mas também é de uma crueldade impressionante. Nossa pobre humanidade é – qual a palavra certa? – tão perdida? desprezível? sofredora? como ele mostra? A vida, segundo Shakespeare, citado depois por William Faulkner, é uma história cheia de som e fúria, contada por um bobo e significando nada.  Significa assim e achei interessante que Woody Allen tenha recuado. Os personagens de ‘Match Point’, nunca me lembro o título em português’, e ‘O Sonho de Cassandra’ chegam ao assassinato. Pela segunda vez já antecipava o gesto de Josh Brolin, desligando os aparelhos que mantinham vivo o autor do livro que ele usurpou, mas dessa vez Woody nos poupou do crime. A propósito, o tema do artista que assume a criação do outro  é tratado de forma (mais) contundente por Joseph Losey em ‘Eva’, com Jeanne Moreau. Mas Woody Allen não é o bobo de Shakespeare. Prova disso é a presença de Freida Pinto, a bela de ‘Slumdog Millionaire’. Eta mulher mais bonita, sô.  O ‘mineirês’ é uma homenagem aos residentes.