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Luiz Carlos Merten

21 Junho 2009 | 12h14

RIO – Estou aqui na redação do ‘Estado’, fazendo os filmes na TV de amanhã. Minha colega Roberta Pennaforte, que está no plantão, lia o jornal quando cheguei. A reportagem de capa é uma entrevista com o lendário Curió, que abre seu arquivo e revela que o Exército executou 41 no Araguaia. Até hoje, eram conhecidos os casos de 25 guerrilheiros executados pela ditadura. Foram mais. Essa história nunca acaba. Está sendo sempre reescrita. No cinema, tem sido um tema recorrente (e inesgotável). Um texto lembra que o ‘Estado’ foi o primeiro jornal a dar notícia da guerrilha no Araguaia, em 24 de setembro de 1972. O então presidente Médici ficou ‘puto’ – acho que é a primeira vez que o jornal utiliza a expressão na capa, mas isso é história. De toda a longa tradição do ‘Estado’, a resistência à ditadura é das que mais engrandecem o jornal, que nunca compartilhou o conceito, vocês sabem de quem, de que houve aqui uma dita ‘branda’. Há também uma entrevista muito interessante, uma tradução do ‘The Guardian’, na parte de Internacional. Abbas Kiarostami, o grande diretor do Irã, manifesta sua inconformidade contra não apenas o resultado da eleição que deu a vitória ao presidente Ahmadinejad, mas tudo o que ocorre no país. Ele ironiza – a presidência em troca de um quilo de laranjas, que era o que o presidente oferecia aos eleitores. O Irã está em pé de guerra, com a oposição contestando o resultado das urnas. Mais do que a república islâmica, Kiarostami critica a própria república. Ele bate no personalismo que caracteriza Ahmadinejad, que vai passar os próximos dois anos reforçando sua atual posição e depois mais dois preparando a próxima eleição. Kiarostami aproveita e diz que a censura a mulheres sem véus nos filmes é uma coisa irreal, porque elas não usam o ‘hijab’ dentro de casa. Está comprando uma briga, o Kiarostami. E pensar que, há 30 anos, quando Khomeini conseguiu derrubar o Xá, tanta gente ficou emocionada com o que parecia a última revolução da era moderna. Trabalhava, naquela época, na editora de mundo, na ‘Zero Hora’, em Porto Alegre, e acompanhei todo o processo, as multidões nas ruas, a renúncia do Xá, o retorno de Khomeini ao país. Três décadas depois, o clamor volta às ruas. E Kiarostami, tantas vezes acusado de fazer filmes apolíticos – são apartidários, o que é diferente -, rompe a mordaça. Há 12 anos seus filmes não passam no Irã. ‘Aquilo que temos dentro de nós, dor e tristeza, é universal’, ele diz.