Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Hoje, na TV

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Julho 2009 | 12h51

Dois programas atraentes – de filmes – hoje na TV. Na TV paga, o Telecine Cult exibe, às 23h55, o ‘Scarface’ de Brian De Palma, com Al Pacino. Dá tempo de ver e, às 2h55, sintonizar na TV aberta para assistir a ‘A Última Fronteira’, na Rede Brasil. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Boa parte da crítica caiu matando quando ‘Scarface’ lançou seu remake do cult de Howard Hawks. O ano era 1983, Ronald Reagan já era presidente e o De Palma fez do seu Scarface um cubano exilado da ilha que irrompia em Miami para comandar o tráfico e estabelecer um império a ferro e fogo. Todo mundo sabe que o cinema de gângsteres floresce em momentos de crise da sociedade dos EUA e o De Palma usou justamente o apoio dos refugiados cubanos a Reagan, cuja retórica anti-Fidel só foi se acentuando com o tempo. Aliás, o filme se abre com o Fidel bradando ‘No los queremos’ e despejando em botes os antirrevolucionários, entre eles Pacino. Sempre gostei muito de ‘Scarface’ – é meu De Palma favorito e nisso estou totalmente de acordo com Carlos Reichenbach, que também é devoto – e mais até pelo que muita gente considera o defeito do filme. Ele é kitsch, vulgar, violento, overacted – é. Mas De Palma retira disso, desse exagero todo, um retrato meio shakespeariano de um tirano que, como Macbeth, se redime na morte. Leonard Maltin, em seu guia de filmes cai matando no De Palma e simplesmente não entende como e por que este underdog, como o define, virou um herói para tanta gente. Santa ignorância! Mary Elizabeth Mastrantonio faz a irmã que se envolve com o lugar tenente de Tony Montana/Pacino e eu nunca entendi por que Steven Bauer, que faz o papel, não virou astro, porque o cara é poderoso. Outro dia, vi-o na TV, num filme mais recente, e ele envelheceu mal, que pena. Michelle Pfeiffer faz a amante que se destrói nas drogas e está maravilhosa. Sugiro que (re)vejam ‘Scarface’ à luz de ‘Inimigos Públicos’, de Michael Mann, em cartaz nos cinemas. Como eu disse, dá tempo de ver o explosivo desfecho de ‘Scarface’, virar o dial e cair na Rede Brasil. Tentei checar ontem, mas não foi possível. Ocorre que, na ficha divulgada pela emissora, ‘A Última Fronteira’ tem o título original de ‘The Westerner’ e este é um western clássico de William Wyler, de 1940, lançado no Brasil com outro título, ‘O Galante Aventureiro’. A emissora anuncia um filme colorido e existe, realmente, uma versão colorizada por computador, mas se for realmente o filme de Wyler seria melhor vê-lo no impecável original em preto e branco, fotografia de Gregg Tolland, um ano antes de ‘Cidadão Kane’ – mas a profundidade de campo, ou campo total, que alguns atribuem a Orson Welles, já vinha sendo trabalhada por Tolland ele em parceria com Wyler (desde ‘O Morro dos Ventos Uivantes, a versão com Laurence Olivier e Merle Oberon, em 1939). ‘A Última Fronteira’ trata de disputas por terras no Velho Oeste e Walter Brennan faz o lendário juiz Roy Bean, que Paul Newman interpretou mais tarde num western deslumbrante de John Huston (‘Roy Bean, o Homem da Lei’, com Ava Gardner como Lily Langtry, a atriz amada pelo magistrado). Temos falado bastante sobre Wyler aqui no blog. Considerado um dos clássicos de Hollywood, ele se opunha tanto ao cinema da nouvelle vague que fez acrescentar a.v, de ancienne vague, a seus cartões, nos anos 60. Sua preferência por roteiros sólidos e pelo psicologismo dos personagens fez dele um personagem polêmico, mas o próprio André Bazin, crítico seminal, defendia Wyler, dizendo que o chamado ‘estilista sem estilo’ na verdade impunha sua assinatura por meio do uso que fazia da profundidade de campo, sendo dos primeiros a estimular o público a fazer a própria montagem nos filmes que dirigia. Wyler não fez muitos westerns em sua carreira. Não sei se podemos definir ‘Sublime Tentação’ (Friendly Persuason), de novo com Gary Cooper, como um western. O filme mostra o astro como um mórmon que tenta manter sua família à margem da Guerra Civil norte-americana. Dorothy McGuire faz sua mulher e o jovem Anthony Perkins é o filho (antes de ficar estigmatizado como Norman Bates). ‘Sublime Tentação’ recebeu a Palma de Ouro de 1957 e, só para constar, o prêmio do júri foi dividido naquele ano entre Wajda (‘Kanal’) e Bergman (‘O Sétimo Selo’), cabendo o prêmio de mise-en-scène (direção) ao Robert Bresson de ‘Um Condenado à Morte Escapou’. Que seleção, hein? No ano seguinte, em 1958, Wyler fez seu western legítimo e foi ‘The Big Country’, lançado no Brasil como ‘Da Terra Nascem os Homens’, com a cena antológica de luta entre Gregory Peck e Charlton Heston e aquela trilha do Jerome Moross. ‘Da Terra…’ é um filme que não me canso de ver. Só na TV paga, devo tê-lo visto uma ‘trocentas’ vezes. Sempre que zapeava e lá estava o filme – foram muitas vezes – não resistia e embarcava nas imagens. Para mim, na sua ligação com a terra, é um filme mítico como ‘Giant’ (Assim Caminha a Humanidade), de George Stevens – que compartilhava com Wyler não apenas a fama de ‘clássico’ como o rótulo de ‘perfeccionista’.