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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2010 | 10h37

Não tive paciência de (re)ler o post anterior, que me saiu de um jato. Espero que não tenha muitos erros de digitação. Estou na redação do ‘Estado’, cheio de textos para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’. Ontem, havia redigido um post enorme, que se perdeu. Vou reconstituir em parte, porque me parecem interessantes duas ou três coisas que quero relatar. Havia entrevistado Sylvain Chomet em Berlim, em fevereiro. É um diretor cult, autor da animação ‘As Bicicletas de Bellevue’, que tanto sucesso fez na cidade (ficou anos, de verdade, no Belas Artes). Tomei um choque ao descobrir que seu novo filme, ‘O Mágico’, é baseado num roteiro que Jacques Tati não teve tempo de filmar e que enviou como carta à filha que não reconheceu. Que história! Tati teve um affair com uma dançarina de music hall, a irmã, sei lá por que, fez de tudo e conseguiu separá-lo da amante. Ele nem sequer reconheceu a filha, que ela criou sozinha. E aí, Tati, antes de morrer, enviou a carta/roteiro à filha bastarda. A história de um mágico decadente que encontra essa garota órfã e ela é sua ponte para retornar à vida e à arte. ‘O Mágico’, ‘L’Illusioniste, me impressionou muito, tanto pelo visual, característico de Chomet, quanto pela ‘dramaturgia’. Como pai, sou muito suscetível ao tema. Fiquei fantasiando, e comentei com Chomet. Todo grande cômico é triste. Chaplin, Buster Keaton, mas Tati era mais triste ainda. M. Hulot passa pelo mundo como um desastrado que se multiplica, ou desdobra, nos outros, em cena. Sempre achei, e escrevi isso quando ele morreu, que Tati era o Antonioni do humor, o cômico da solidão e da incomunicabilidade. E se tudo isso veio dessa tragédia pessoal que o tornou amargurado consigo mesmo? Vejam ‘O Mágico’. Vejam também ‘O Estranho Caso de Angélica’. Quando cheguei ontem à noite no Arteplex, avistei à distância Ricardo Trêpa. Quase fui falar com ele, que estava sozinho, mas aí chegaram amigos, lá e cá, e desisti da aproximação. Ricardo me fez um relato muito honesto e interessante, na entrevista que fiz com ele, sexta-feira à tarde. Disse-me que seu avô, Manoel de Oliveira, vive num estado de estresse permanente. Manoel está com 102 anos – que completa em dezembro -, mas gostaria de viver 200. Vive numa corrida contra o tempo. Agora mesmo, tem dois roteiros que quer filmar e é sempre uma ansiedade. Qual fazer primeiro? Terá tempo para fazer o segundo? O incrível, o maravilhoso – ah, a arte! – é que essa ansiedade não passa na tela. Já gostava de ‘Angélica’. Gostei mais ainda depois da entrevista com Ricardo Trêpa.