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Historias e temas nao sao a mesma coisa

Luiz Carlos Merten

13 Fevereiro 2007 | 21h55

BERLIM – Falei de manhah da minha insatisfacao em relacao ao novo Techineh, Les Temoins, mas a caminho da primeira sessao do dia me caiu a ficha de que eu nao tinha entendido nada. Ao dar seu testemunho sobre os primeiros anos da aids, Techineh, como gay militante que eh, quis falar sobre as transformacoes sociais e comportamentais que surgiram com a sindrome da imunodeficiencia adquirida. A aids comecou atingindo homossexuais e drogados, mas depois o espectro social e comportamental das vitimas foi se ampliando e hoje em dia, salvo abstinencia absoluta (ou cuidados basicos, como a boa e velha camisinha), ninguem mais estah a salvo. A segregacao de homossexuais, estigmatizados e/ou demonizados no surgimento da doenca, foi substituida por um grau bastante acentuado de conscientizacao. E eh disso que o filme de Techineh fala. Nao tinha entendido a sutileza. Quando o garoto prefere o policial, marido de Emmanuelle Beart, ao medico que foi seu primeiro protetor (ou explorador…) em Paris, o medico critica o adulterio, a impudencia e a irresponsabilidade do policial, mas, na verdade, talvez seja muito mais uma reacao aa rejeicao e aa dor da perda. A mulher, Emmanuelle, eh a chave. Ela tinha um pacto de liberdade com o marido. Que ele estivesse saindo com mulheres, ou com um homem, eh coisa que nao lhe cabe julgar, como ela diz. Seria moralismo. Les Temoins, afinal de contas, termina levantando questoes bem mais complexas do que pareceram a uma primeira visao. Outro tanto dessa complexidade encontrei no filme de Paul Schrader, The Walker, que estah passando fora de concurso, em homenagem ao presidente do juri que vai atribuir o Urso de Ouro deste ano. Schrader fez um filme sobre um gay envolvido numa trama sordida de corrupcao e assassinato em Washington. O filme eh cheio de referencias aa Guerra do Iraque e tem um elenco para lah de bom (Woody Harrelson, na pele do gay, Kristin Scott Thomas, Lauren Bacall). No final, seu tema termina sendo a quebra de confianca, o mesmo de Night Moves, que Arthur Penn fez nos anos 70 e eh o filme definitvo sobre a era de Watergate. Tambem revi Night Moves e o filme estah ainda melhor. Podem-se fazer pontes entre os filmes de Techineh, Schrader e Penn. Por mais diferentes que sejam as historias, o tema, ou os temas,nao sao tao distantes assim.