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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2006 | 12h35

Estou hoje com a vida complicada, trocando de endereço (físico), o que me deixa pouco tempo para postar as novidades do dia. Mas vamos lá – passei agora pelo estande da Mostra no Conjunto Nacional e é um sucesso. Tem um monte de gente em busca de informações (o que pode ser feito pelo endereço virtual blogdamostra.blog.uol.com.br) e também comprando as permasnentes e os pacotes de 20 e 40 ingressos. Fomos os três, ontem, Luiz Zanin Oricchio, Ubiratan Brasil e eu, conversar com o Leon Cakoff. Ouvimos muitas histórias, algumas que já conhecia, outras novas e que o Leon relata (a maioria) no livro que deve sair pela CosacNaify, contando a história destes 30 anos. Chama-se (o livro) Início Sem Fim e a foto da capa reproduz uma fila imensa, no Masp, que a computação gráfica transformou no símbolo do infinito. Foi a fila para ver Calígula, de Tinto Brass, que o Leon conseguiu exibir na 5ª Mostra, em 1981, valendo-se de um recurso que existia mas que nenhum distribuidor tinha coragem de usar, o certificado especial de censura, com medo de ficar visado pelos órgãos de repressão da ditadura militar. O Bira, meu colega Ubiratan, estava lá. Também estava na histórica sessão de O Estado das Coisas, de Wim Wenders, quando a 9 ª Mostra foi interrompida pela censura. Leon contou que havia gente chorando na platéia do Metrópole, quando ele foi anunciar que a Mostra estava sendo interrompida pelas autoridades do regime militar, e isso depois de ele ter conseguido pelo menos autorização para terminar a projeção. Bira lembrava-se da choradeira. Quem vive hoje livre da censura não pode nem de longe avaliar o que era aquele obscurantismo. A censura econômica continua, a liberdade de escolha é muitas vezes (quase sempre) dirigida, mas não há mais nenhum brucutu instalado nas redações para dizer o que os jornais podem publicar nem invadindo os cinemas para decidir o que o cidadão maior de idade e vacinado pode ver. A Mostra fez história inclusive por isso, pela determinação do Leon em desafiar o regime, muitas vezes sozinho, contra tudo e todos, só por amor ao cinema. A Mostra nasceu porque ele queria que o público visse os filmes que não chegavam ao País, um pouco pela censura política, mas também pelo desinteresse de distribuidores e exibidpores por tudo aquilo que não fosse o ramerrão da indústria dominante (a de Hollywood). Trinta anos depois, o discurso de Leon Cakoff continua o mesmo – defesa da diversidade cultural, da livre circulação das idéias. Ficamos, Zanin, Bira e eu, ouvindo aquelas histórias que ele conta no livro. E aí o Leon disse que tinha uma surpresa. Exibiu pra gente, em primeiríssima mão, a vinheta da 30ª Mostra, com a animação do cartaz criado por Manoel de Oliveira. É muito legal, o que permite dizer que a Mostra, além de tudo o que faz para o prazer do cinéfilo, também contribui para o desenvolvimento da arte gráfica brasileira. Aguarde a sensacional vinheta que logo-logo estará disponível no blog da Mostra. E, ah, sim, dê uma passadinha pelo estande, para já se ir preparando. Já que falamos em estande, em Conjunto Nacional, o lounge este ano troca de lugar e vai para o 6º ou 7º andar do Shopping Frei Caneca, que passa a ser seu endereço para os debates e encontros da 30ª Mostra.

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