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História de Herculano

Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2006 | 15h46

Como todo mundo, gosto muito de Toda Nudez Será Castigada, que considero o melhor filme do Jabor, com Tudo Bem, que não tive tempo de (re)ver na Mostra, mas quem viu me disse que está melhor. Gosto muito do Nelson Rodrigues, principalmente dos excessos (grotescos e poéticos) que sempre me deixam de queixo caído. Me impressiona quando o Herculano berra que a mulher que morre de câncer no seio é uma santa. Nelson Rodrigues era louco de escrever uma coisa assim, louco e genial. Essa morbidez, essa paixão, transformadas em olhar sobre a classe média, me fascinam. Além do filme, vi a montagem com a Leona Cavalli, que achei boa (a Leona, principalmente, se bem que a Geni dela era muito Blanche Dubois, em Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, ou assim me pareceu). Vi agora a montagem da Armazém Cia. de Teatro, que terminou ontem, no Centro Cultural São Paulo, com direção do Paulo de Moraes. Achei ótima, mas tive uma sensação curiosa. Em várias momentos, me pareceu que o Paulo estava colocando uns ‘cacos’ que a peça não tinha. Quando a Geni diz que os fricotes do Herculano são coisas de viado, por exemplo. Fui conferir no texto do Nelson, e tem, mas nunca tinha me chamado a atenção. Algumas coisas não estavam me convencendo. Estava achando o bordel delirante demais, com os dois travecos que fazem também o médico e o padre, mas na cena da dança da turma do bordel com as tias do Herculano, que achei a melhor, o casamento do vício e da virtude, as coisas todas se encaixaram, fazendo sentido. Com todas as restrições que possa ter, ou ter tido, gostei demais. Paulo ressaltou o papel do Herculano (e o ator Thales Coutinho me pareceu genial). Pela primeira vez, vi Toda Nudez como a história do Herculano, mais até que a da Geni. Ela, interpretada pela mulher do diretor, Patrícia Selonk, me pareceu fantástica, também, com alguns momentos de arrepiar. Mas gostei muito, mesmo, foi da superposição de Shakespeare, Otelo, ao Nelson. É uma coisa que está lá no texto da peça, mas passa despercebida e o Paulo ressaltou. O ódio do irmão pelo Herculano, a maneira como ele tece sua trama, como Iago. Saí nas nuvens. A platéia era uma garotada só. Curtiam as cenas de nu frontal, os palavrões, as piadas, os efeitos, mas não era uma platéia desrespeitosa nem que não estava entendendo. Havia um clima de que todo o teatro participava. No fim, fazia tempo que não via uma peça ser tão aplaudida. E merecidamente. Espero que volte, para que vocês possam ver. E deixo uma pergunta, para quem puder me responder – quem canta Quizás, Quizás, Quizás é a Sara Montiel? Me pareceu, mas não tenho certeza.