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Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2010 | 11h20

Daqui a pouco, cinéfilo que se preze estará ao meio-dia no Espaço Unibanco, na Rua Augusta, para ssistir a ‘Hiroshima, Meu Amor’ na abertura da programação especial que a Sessão Cinéfila vai dedicar a Alain Resnais, durante todo o mês de janeiro, sempre aos sábados. O mistério e a beleza vão recomeçar. “Tu n’as rien vu à Hiroshima’, diz o japonês (Eiji Okada) para sua amante francesa (Emmanuelle Riva), que roda na cidade destruída pela bopmba atômica (e depois reconstruída) um filme sobre a paz. A história é conhecida. Os produtores encomendaram a Resnais um filme sobre a bomba atômica. Ele começou as trabalha no projeto, mas sentiu que estava a repetir-se, refazendo “Nuit et Brouillard’, Noite e Neblina, sobre os campos de concentração. Resnais chamou então Marguerite Duras e a exortou a fazer literatura. Foi um choue quando ‘Hiroshima’ estreou. Não tinha idade para assistir ao filme quando isso ocorreu. Na verdade, assisti a ‘Hiroshima’ somente anos mais tarde, numa sessão acho que no Clube de Cinema de Porto Alegre, num cinema que já fechou, o Vogue. O filme deve ter sido exibido em alguma data comemorativa da história da bomba – em agosto. Jefferson Barros fez a apresentação. Tomei um choque e, desde então, nunca deixei de amar o clássico de Resnais. É um dos meus filmes preferidos do autor, com ‘Providence’ e ‘Stavisky’. ‘Hiroshima’ virou um marco, uma data, na história do cinema. Havia encomendado a um amigo português o volume ‘Nouvelle Vague’, editado pela Cinemateca Portuguesa para comemorar os 40 anos da nouvelle vague, em 1999. Não sei se houve uma edição atualizada no ano passado, quando a nova onda completou 50 anos.O livro é muito legal, uma coletânea de escritos, ensaios e detextos que rtambém fizeram história. Gosto particularmente de ‘Hiroshima, Notre Amur’, Hiroshima Nosso Amor, um debate sobre o clássico de Resnais que viro reportagem no número 97 de ‘Cahiers du Cinéma, em julho de 1959. Os debatedores – Jean Luc Godard, Eric Rhmer, Jacues Rivette, Pierre Kast, Jacques-DOniol Valcroze, Jean Domarchi. A primeira observação é de Rohmer, afirmando que todas as pessoas estarão de acordo que ‘Hiroshima’ é um filme do qual se pode dizer tudo e aí Godard concede sua primeira réplica – ‘Comecemos por dizer que se trata de literatura.’
Ou abrir um parágrafo. O próprio Godard diz, logo em seguida, que o mais impressionante é que ‘Hiroshima’ não possui nenhuma influÊncia cinematográfic. Pode-se dizer que ‘Hroshima’, ele insiste, é Faulkner mais Strawinsky, mas não se pode dizer que é um cineasta mais outro. Isso não é exatamente verdadeiro, porque Domarchi aproxima Resnais de EIsenstein em relação ao fundo – os dois tentam unificar contrários, ou dito de outra forma, a arte deles é dialética. Na evolução desse conceito, Rohmer termina definindo Resnais como um cubista, o primeiro cineasta moderno do cinema sonoro. Gostaria que vocês procurassem este texto na internet. Pode ser que ele já exista na rede. É estimulante. É curioso como os debatedores, todos fissurados pela visceralidade de Resnais, fazem suas restrições a ‘Hiroshima’. Rohmer diz que os personagens de Okada e Riva são irritantes. Godard diz que uma coisa o perturba, mas também já havia perturbado e ‘Nuit et Brouillard’, e é a facilidade com que Resnais mostra cenas de horror, porque, como diz Godard, ‘estamos, de repente, para lá da estética’. Perturba-o o fato de que as cenas do casal fazendo amor, em primeiros planos, ssustam do mesmo modo que as imagens das desgraças, também em primeiros planos, ocasionadas pela bomba. Existe algo não de imoral, mas de amoral, em mostrar assim o amor e o horror com os mesmíssimos grandes planos. É uma polêmixca que sempre acompanhou ‘Hiroshima’ – o amor frustrado da francesa pelo alemão, em Nevers, termina tendo o mesmo significado que o martírio de Hiroshima e Nagasaki, as cidades japonesas que, destruída pela bomba, levaram o Japão a capitular, encerrando a 2ª Guerra.Condfesso que isso me estimula uma reflexão que não vou levar a cabo aqui, mas cada vez me convenço mais que ‘Medos Privados em Lugares Públicos’ é um filme farol de Resnais e esse título bem pode oferecer uma súmula de sua obra, pelo menos dos meus filmes favoritos. Teria imenso prazer em seguir aqui falando de Resnais – e desse precioso volume ‘Nouvelle Vague’, que não sei se vocês poderiam adquirir via Cinemateca Portuguesa/Museu do Cinema -, mas preciso tomar banho e me arrumar, se quiser rever ‘Hiroshima’ no cinema. Tenho o DVD, mas não é a mesma coisa. Às vezes, o coloco para rodar só para ‘ouvir’ o filme, não apenas o recitativo, mas a trilha de Giovanni Fusco e Georges Delerue. Um criou o tema de Hiroshima, o o outro, o de Nevers. São músicas que integram meu imaginário com a 9ª ou ‘Clair de Lune’. Essa última tem um efeito catártico sobre mim. Se quero chorar, e as lágrimas não vêm, basta evocar Debussy.