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Luiz Carlos Merten

11 Abril 2011 | 10h01

Alguém me pediu que comentasse ‘Hino de Uma Consciência’, Battle Hymn, de Douglas Sirk, que saiu em DVD. O filme pertence à série que o diretor fez com Rock Hudson, mas não no gênero que os consagrou, o melodrama. O filme passa-se na Guerra da Coreia e eu vou contar uma coisa para vocês. Fui ao livro com a entrevista que Sirk concedeu a Jan Holliday para verificar o que o criador pensava de sua criação. Sirk não tinha uma opinião muito lisonjeira sobre ‘Hino de Uma Consciência’, que foi um dos três filmes que fez em 1957. O primeiro havia sido ‘Palavras ao Vento’, sua obra-prima (ou será ‘Imitação da Vida’?), o segundo ‘Battle Hymn’ e o terceiro, ‘Sinfonia Interrompida’. Em 1958, ele fez outro de seus maiores filmes, ‘Almas Maculadas’ e, no ano seguinte, despediu-se do cinema com ‘Imitation of Life’, que termina com aquele funeral – metaforicamente, o de um certo cinema que iria mudar, ao longo dos anos 1960, e o artista percebeu isso. Sirk diz que ‘Hino de Uma Consciência’ não era um projeto seu, mas ele embarcou na proposta do estúdio por dois motivos – sempre quis fazer um filme sobre aviação (mas ‘Tarnished Angels’/Almas Maculadas saiu melhor) e a produção também lhe permitiria ir ao Japão, que ele sempre quis conhecer, por causa do teatro No e do Kabuki, e à Coreia. A propósito, na Coreias ele disse que viu um ‘Ricardo III’ do quasl não conseguia desgrudar o olho do palco, embora apenas intuísse (por conhecer a fábula) o que estava sendo dito. Ricardo movia-se como uma serpente e Sirk achava uma interessante interpretação do texto de Shakespeare – preciso contar para Gabriel Villela, cujo ‘Ricardo III’, pelos Clowns de Shakespeare, arrebentou no Festival de Curitiba, que terminou ontem. De volta a ‘Hino’, o personagem, em si, também era atraente – um pregador religioso que faz a guerra, ou melhor, que vive um conflito interior, ele despeja bombas no inimigo e tenta se redimir salvando crianças. Quando aceitou, Sirk estava decidido a fazer mudanças no roteiro, mas o que ele não sabia é que, se a história era real, o biografado tinha direito de veto e ia acompanhar a filmagem. O cara estava encantado de ser interpretado por Rock Hudson, um dos maiores astros de Hollywood. Em todo lugar, você vai encontrar que se trata de um dos melhores papeis e uma das melhor atuações de Hudson, mas Sirk nunca pensou assim. Ele acha que, para o filme ser bom e justificar o dilaceramento interno, o personagem tinhas de ser vacilante. Tinha de beber, por exemplo, e aí perderia o posto, teria problemas familiares. Não houve jeito de convencer o biografado. ‘Nunca bebi’, ‘isso nunca ocorreu comigo’, ele dizia a toda hora. Era um papel para Robert Stack, tão bom em ‘Palavras ao Vento’ e ‘Almas Maculadas’, não para Hudson, cujo ‘Rock’ (Rocha) representava alguma coisa para Sirk – o ator era particularmente bom interpretando personagens ‘sólidos’. Havia nisso uma ironia porque Hudson era gay e levava uma vida dupla, machão na tela e uma ‘tramp’ fora dela, sempre envolvido em orgias. Para completar, Sirk diz que sofreu um acidente, quebrou a perna e teve de dirigir meio filme imobilizado, numa cadeira de rodas. Nem das cenas aéreas ele gosta, Enfim, é um caso em que a voz do autor é dissonante, pois Leonard Maltin, em seu guia de filmes, considera a atuação de Hudson convincente e destaca os valores de produção, o que é uma forma de dizer que as cenas aéreas e de combates devem ser boas. Falamos aqui outro deias de Martha Hyer, que faz a protagonista feminina, e o filme ainda conta com a participação de Anna Kashfi, a mulher que enganou Marlon Brando. O astro casou-se com ela achando que era eurasiana. O casamento não durou e foi um escândalo em Hollywood quando ele descobriu que a mulher era interiorana, bem do coração dos EUA. Seu papel em ‘Hino de Uma Consciência’ deve ter ajudado a fazer a cabeça de Brando. De minha parte, sou mais Sirk. Nunca me lembro de ‘Hino’ quando penso no cinema dele. Em compensação, adorava, não sei se o filme se mantém, seu western, ‘Herança Sagrada’, Taza, Son of Cochise, também com Rock Hudson, e o épico ‘Átila, o Rei dos Hinos’, Sign of the Pagan – que título maravilhoso: O Signo do Pagão –, em que Rita Gam sempre me pareceu particularmente sedutora.