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Cultura » Hino ao Amor (1)

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Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2007 | 15h26

Erro bastante, e vocês, melhor do que ninguém, sabem disso, mas, às vezes, ocorre de eu estar certo. Um leitor, Odilon, escreveu para o Estado, reclamando do meu erro no texto de abertura de Piaf, na edição de sexta passada, no Caderno 2. Eu citava, no meu texto, Dalva de Oliveira, cantando a versão em português de ‘Hino ao Amor’ e ele me contestava, dizendo que Dalva nunca cantou a música e que a versão brasileira foi um grande êxito de Wilma Bentivegna. Ocorre que Dalva gravou, sim, e em Porto Alegre minha ex-mulher guarda até hoje o vinil que compramos no Uruguai – ‘Dalva’, da Odeon-EMI, de Montevidéu –, no qual ela canta de um jeito que deixaria a própria Edith arrepiada. Tem uma parte declamada, em que a Dalva meio que hesita, para logo em seguida engatar com “Se o azul do céu escurecer…” que é uma coisa de louco. Aproveito para fazer duas confissões que talvez só interessem a mim, mas, enfim, lá vão. Ninguém mais fala em Wilma Bentivegna hoje em dia, acho que só o Odilon e eu, mas a Wilma faz parte das minhas emoções de juventude com outra música romântica, da qual nem me lembro o nome. “Esta canção/Que eu canto ao luar’Eu fiz, pensando em você/ As nuvens voam, passam no ar/e eu, pensando em você….” É incrível, pode até ser brega, mas essa música me acompanha sempre, como tem outra, do Paulo Sérgio – este eu tirei do baú –, que também faz parte do meu imaginário. Acho que Roberto Carlos também cantava, mas não me lembro o título. Tem um verso que diz – “Já nem sei dizer se sou feliz ou não” e culmina com “E essa tristeza/vai ter de acabar e custe o que custar/Às vezes sinto até vontade de chorar…” De novo pode ser brega, mas são meus melhores antídotos contra a depressão. Toda tristeza sempre acaba, diz a música. Isso faz parte do meu credo, como a outra frase, de origem mais nobre – ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, de João Guimarães Rosa –, que diz “Jesus, manso e humilde de coração/fazei meu coração semelhante ao vosso.” Há décadas que, quando a coisa não vai bem comigo, essas frases, musicais ou não, me acompanham. São a minha forma de oração.