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Cultura » Herói, guerreiro!

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Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2009 | 12h27

Sou carnavalesco, vocês sabem, e fiquei feliz da vida de estar de volta ao Brasil para o desfile das escolas de samba. Nos últimos anos, o Festival de Berlim tem coincidido com o carnaval, o que é sempre motivo de dor para mim, mas não a ponto de desistir da Berlinale para ir à avenida. Ontem, fui. Cheguei em pleno desfile da Pérola Negra, a tempo de ver – completo! – o desfile da ‘minha’ Mocidade Alegre, que foi o seguinte. É a escola do meu coração em São Paulo, talvez por ter desfilado algumas vezes com a Mocidade. Mas eu não dava sorte para a escola. Nas vezes em que desfilei, ela nunca ganhou, ao contrário da Mangueira, no Rio, que foi campeã no ano em que Leila Reis, Roseli Tardelli, Carla França e eu saímos naquele enredo em homenagem a Chico Buarque. Ah, o meu guri… Amei ontem a comissão de frente da Mocidade, delirei com a evolução da bateria e me toquei muito com a homenagem ao ‘Mágico de Oz’, com as representações de Dorothy, do Leão Covarde, do Homem de Lata e do Espantalho. Confesso que meu coração disparou – cheguei a pensar: deve ser uma morte e tanto na avenida, mas se não for vendo filme é outro bom lugar para morrer. Não estou tendo pensamentos mórbidos, eu hein?, mas fiz meu voto de que tenho de voltar a desfilar pela Mocidade e aí espero quebrar a escrita e ver a minha escola vencer. Depois da Mocidade, estava quase saindo do sambódromo quando chegou meu amigo Dib Carneiro e ficamos para ver a Gaviões. No caso dessa escola, à paixão do carnaval soma-se a do futebol e a Gaviões levanta a massa como nenhuma outra. Foi outro belo desfile, na empolgação, mas tenho lá meus reparos. A Gaviões tem muita gente e ocorre de algumas alas embolarem enquanto outras passam a galope. O samba-enredo, apesar daquele refrão empolgante que catei de peito aberto – ‘Sou um herói/guerreiro’ -, propunha uma quebra de ritmo que, pelo menos duas vezes, me deu a impressão de haver atravessado o som. Me lembrei que, em Porto Alegre, quando era garoto, meu cunhado carnavalesco – João Bregatto -, tinha o maior terror de que o som atravessasse quando a escola dele, ‘Vagalumes do Amor’ (pela qual desfilei), pisasse na avenida. Mas o que me impresssionou foi o gigantismo ‘hollywoodiano’ do desfile de ontem da Gaviões. Um dos carros da escola tinha aquele imenso homem-pássaro da mitologia egípcia que se levantava, coisa do louco, mas a massa foi ao delírio com o carro alegórico dos esportes, incluindo o globo da morte, com aqueles dois motociclistas que ameaçavam se chocar e anda produziam um ruído ensurdecedor. Saí do sambódromo com a Gaviões e agora vou torcer pela ‘minha’ Mocidade, mas se der a Fiel acho que não resisto e vou para a festa com a massa corintiana. Guerreiros!