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Cultura » Hermila troca o céu pelo deserto

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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2007 | 13h22

GRAMADO – E aí, Merten, o deserto continua infeliz? Um monte de gente tem me cobrado sobre o filme de Paulo Caldas, que havia visto em Berlim e teve ontem à noite sua exibição aqui em Gramado. O filme concorre aos Kikitos. Campo-alguma-coisa vai me desculpar, mas não me empolguei muito, não, embora tenha gostado de rever Deserto Feliz. É duro ficar falando de um filme que a maioria ainda não viu, mas, para resumir, é o seguinte. Paulo Caldas fez um filme rigorosíssimo, com planos de uma beleza que corta a respiração. Não é tanto uma beleza visual, feita de plasticidade, cores e ângulos. É algo mais conceitual. Ele é mestre em armar a cena com um personagem em primeiro plano e uma ação de fundo. Na pópria abertura, um plano que se repete algumas vezes, a garota, Jéssica, está em primeiro plano e o gringo, Peter Ketnath, está deitado na cama, ao fundo. Há uma impossibilidade de diálogo entre os dois. A garota, Jéssica, deambula pelo filme, levada pelo barco do destino, perdida como diz a canção que ela não pára de ouvir (e cantar) e que pontua a ação. Jéssica é estuprada pelo padrasto, abandona a casa, vira prostituta e, no bojo do turismo sexual, vai parar na Alemanha, levada pelo gringo. Jéssica é uma personagem que tanto pode fascinar como irritar. Ela vai, levada pelo tal barco. O próprio gringo tenta convencê-la a fazer alguma coisa. Ela fica ali, apática. Jéssica é o oposto de Suely, que tem um sonho para construir. Como espectador, não senti nada por Jéssica. O filme não tem alma, talvez porque a própria Jéssica não tem (mas Paulo Caldas agradeceu, no palco do Palácio dos Festivais, à atriz Nash Laila por lhe haver emprestado sua alma. Do jeito que senti, ela lhe emprestou o corpo, não a alma). Uma cena emblemática é a do estupro. A de Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, deixou meio mundo indignado. A de Deserto Feliz é mais complexa. Paulo Caldas filma de um jeito que a imagem parece meio abstrata. Só o som, o vaivém forçado do cara sobre a menina, empurrando a cama, que bate, é concreto (e incomoda). É muito sofisticado, mas fiquei com o sentimento de que a estética estava ali se superpondo à ética. Olhava a cena e não conseguia sentir nada por Jéssica. Aliás, pensei uma coisa. O padrasto de Deserto Feliz é um fraco, um ser abjeto no qual a mulher bate. Fiz a ponte com Woody Allen, afinal de contas, padrasto da filha coreana de Mia Farrow. Ah, mas é diferente. Woody Allen pode. Afinal de contas, não deve ter sido bruto como aquele sertanejo bronco. Deixem-me afastar ao pensamento horrível e voltar a Deserto Feliz, ao que tem de melhor. Hermila Guedes. Ela faz uma prostituta de boca-suja que divide o quarto com Jéssica num treme-treme do Recife. Hermila, lá pelas tantas, põe uma peruca longa e dança – as ações de fundo em que Paulo Caldas é bom demais – trocando beijo de língua com Nash Laila. O que é aquilo? Hermila é um arraso.