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Hemingway & Fuentes

Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2009 | 10h08

Chamou-me a atenção na mesa de meu colega Ubiratan Brasil – estou na redação do ‘Estado’ – a capa da edição de hoje do Segundo Caderno de ‘O Globo’. Os melhores livros de 2009. Não posso falar da lista toda – e o Bira me garante que ‘Cine Privê’, de Antônio Carlos Viana, premiado pela APCA, é muito bom –, mas dos que li a seleção me pareceu bem estranha. ‘Leite Derramado’, de Chico Buarque; ‘O Filho da Mãe’, de Bernardo Carvalho etc. Mas eu gostei de ‘Caim’, o mais ‘legível’ dos livros de José Saramago. Deixem para lá a lista. Quando eu publicar aqui a de meus filmes favoritos no ano também receberei pedradas. Folheando rapidamente o jornal, encontrei a notícia de que Andy García prepara o terceiro longa, após ‘Cachao’ e ‘A Cidade Perdida’, do qual revi partes outro dia – já faz um tempo – na TV paga e me pareceu mais interessante do que quando assisti ao filme no cinema. García, sempre fiel às suas origens cubanas, vai agora realizar ‘Hemingway & Fuentes’, sobre a amizade do escritor norte-americano Ernest Hemingway com o marinheiro Gregorio Fuentes, nascido nas Ilhas Canárias, mas radicado em Cuba, onde ambos se conheceram. Gregorio foi o modelo no qual Hemingway se inspirou para criar o Santiago de ‘O Velho e o Mar’, que John Ford começou a filmar, mas foi substituído por John Sturges, a pedido de Spencer Tracy, que fazia o pescador e, pelo visto, tinha mais confiança em seu diretor de ‘Conspiração do Silêncio’ (Bad Day at Black Rock). Comecei falando de literatura e prossigo nela. Hemingway! Caçador, jornalista, correspondente de guerra, apaixonado por esportes radicais – naquela época a definição talvez fosse sangrentos –, Hemingway foi um grande autor, mestre da economia, mas foi principalmente emblemático para gerações que viam nele a representação da macheza e de um estilo de vida baseado na boemia e no contato com o perigo. José Onofre, meu inesquecível amigo – meu mentor, morto neste ano que se encerra –, escreveu certa vez um texto sobre Hemingway como especialista em morte. É em torno dela, desta fatalidade biológica tratada como fato ou metáfora, que lidam seus textos, tão exatos – no rigor com que ele usava as palavras – que é possível lê-los não como prazer estético, mas como experiência visceral. O cinema muitas vezes flertou com Hemingway. ‘Por Quem os Sinos Dobram’, de Sam Wood – que Ingrid Bergman fez pensando que seria um grande filme de arte, não dando maior atenção a ‘Casablanca’, de Michael Curtiz, cuja filmagem fora tão atribulada –; ‘Uma Aventura na Martinica’, de Howard Hawks; o já citado ‘O Velho e o Mar’; ‘As Aventuras de Um Jovem’, de Martin Ritt etc. Em livro, meu Hemingway favorito talvez seja ‘O Verão Perigoso’, difícil de catalogar como romance, reportagem ou novo jornalismo, mas que José Onofre tinha razão ao definir como um Hemingway legítimo. O grande escritor foi cobrir a temporada de touros de 1959 na Espanha. Dois cunhados toureiros eletrizavam as multidões, numa época em que o bárbaro espetáculo da tourada provocava outro tipo de reação – António Ordoñez e Luís Miguel Dominguín. Hermingway tomou o partido do primeiro e o seguiu, de arena em arena. Contratado pela revista ‘Life’ para escrever um texto de 10 mil palavras, ele redigiu 120 mil, reduzidas para 70 mil. José Onofre gostava de citar a máxima da moral cristã do autor – ‘A graça sob o impulso e a elegância sob pressão’ –, observando que nem com cortes a grande arte de Hemingway conseguia baixar de sua estratosfera. No cinema, mesmo sendo hawksiano de carteirinha, o ‘meu’ Hemingway é o de ‘As Ilhas do Adeus’, que ele escreveu em Cuba. George C. Scott faz o escultor que vive exilado. Ele recebe a visita da mulher, Claire Bloom, que vem lhe dizer que o filho deles morreu na guerra. Caminham na praia, param à distância e o diretor Franklin J. Schaffner termina cortando para aproximar a câmera e captar a expressão de Scott, quando seu mundo rui com a notícia. Sei que muita gente – a torcida do Flamengo e a do Coríntians, juntas – não gosta da terça parte final do filme, que vira uma trama de vingança, quando Scott destrói uma embarcação nazista para aplacar sua ira contra os nazistas. Mas a parte do meio, e o encontro de Scott e Claire na praia, é a coisa mais bela – e intensa – filmada por Schaffner. Ele morreu há exatamente 20 anos, em 1989, e no imaginário do cinéfilo deve ser lembrado mais por ‘O Planeta dos Macacos’, de 1968, que deu origem à série, mas recebeu seu Oscar por ‘Patton, Rebelde ou Herói?’ e a abertura do filme de 1969, que também deu o prêmio da academia para George C. Scott, é mesmo uma coisa eletrizante. Mas os ‘meus’ filmes preferidos de Schaffner pertencem a uma vertente mais intimista – ‘Vassalos da Ambição’, baseado na peça de Gore Vidal, e ‘As Ilhas do Adeus’. Numa vertente intermediária, o intimismo mais o espetáculo, gosto de ‘O Senhor da Guerra’, com Charlton Heston e Rosemary Forsyth, também baseado numa peça – de Leslie Stevens –, mas em relação ao qual o próprio Schaffner era ambíguo. Fascinado pelo Bergman de ‘O Sétimo Selo’, ele havia impregnado seu épico medieval sobre o direito à primeira noite com cenas de bruxaria que a empresa Universal considerou excessivas para o público norte-americano, preferindo suprimi-las. Comecei falando sobre Hemingway e terminei com Schaffner. Talento não lhe faltava, mas – quem foi que disse? Sérgio Augusto? – ele preferiu ser escolhido, fazendo não importa o quê, a escolher, arriscando-se para construir uma obra mais coesa e íntegra. Sempre lamentei muito que Schaffner tenha se ‘desviado’. Seja como for, Scott é sublime naquela praia. E Claire? De Chaplin (‘Luzes da Ribalta’) a Elio Petri (o episódio ‘Peccato nel Pomeriggio’ de ‘Alta Infidelidade’), passando por Cukor (‘A Vida Íntima de Quatro Mulheres’), Claire Bloom sempre foi um dos meus mitos. Que os outros gostem ou não dela, não faz diferença.