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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2007 | 18h22

Deus do céu, mas isso tá ficando mais chato do que filme de Godard (brincadeirinha com o amigo que acha o amado Jean-Luc chato, direito dele que não compartilho). Não acho que esteja me contradizendo, Santander. Eu refaço o filme no inconsciente, ao escrever, esse tipo de coisa. Mas não acho nem ético que eu diga para um diretor como ele deveria ter filmado. A minha função é transformar o filme num discurso escrito, a dele é passá-lo pela câmera. É a minha maneira de fazer filmes. Nunca quis, não quero e, a esta quadra da minha vida, já sei que nunca vou querer fazer um filme, nesse sentido de escrever o roteiro (ou improvisar, que seja), pegar a câmera, dirigir os atores, montar. Tem crítico que faz isso e depois fica se perguntando – honestamente, como fez o Tiago Mata Machado em Tiradentes – se ainda é crítico. Quanto tempo se demora neste processo de captar, filmar, finalizar? Um, dois, cinco anos? Do meu jeito, faço quatro ou cinco filmes por dia. É desta maneira – mas há um limite – que funciona o meu mecanismo mental. Quando fiz minhas objeções ao Iñárritu é claro que já estava deixando claro qual era o filme que gostaria de ter assistido em Babel e não era o dele. Iñárritu não gostou do que eu disse. Ótimo, eu também não gostei do filme dele. Posso até especificar minha crítica, como fiz, contestando o mecanismo de juntar as histórias, o episódio japonês que, embora necessário, não me agrada e, acima de tudo, colocando em xeque o conceito de que só somos (nós, humanidade) solidários na desgraça. Até aí eu vou. Agora – dizer pro cara que ele deveria ter filmado deste ou daquele jeito… Francamente! Não tenho toda essa arrogância. Foi a minha briga com o Sean Connery. Nem achei o Armadilha (com a Catherine Zeta-Jones) tão ruim, mas, quando o filme passou em Cannes, era um tal de ele e do diretor Jon Amiel dizerem que estavam captando o espírito de Hitchcock de Ladrão de Casaca, que me irritei. Disse que tendo trabalhado com o Hitchcock em Marnie – e tendo feito Ver-Te-Ei no Inferno, que é um dos grandes filmes políticos do cinema, com Martin Ritt –, ele devia saber que não era bem assim. Connery retrucou que não tem culpa, se o cinema se mediocrizou. Dei a réplica da réplica, dizendo que muito menos eu seria culpado. Ficou um clima pesado. Quando falei acima do meu limite, foi baseado na consciência, que tenho muito clara, de que, quando faço mentalmente um filme, é adaptado do que o diretor fez. Crio recriando. Se fosse para atuar de outro jeito eu não seria jornalista. Tentava ser diretor, o que não me interessa, ou fundava uma consultoria.