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Helmut Käutner, sim!

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2009 | 10h34

Nosso infatigável Mário Kawai segue sua vocação de nos manter informados sobre ciclos que ocorrem na cidade. Agora mesmo, ele lembra que há um ciclo dedicado a Helmut Käutner no CCBB. Roteirista e diretor, Käutner iniciou sua carreira sob Hitler, com filmes que, segundo os críticos, se destacavam no marasmo da época justamente porque Käutner, tendo estudado filologia, cultivava um tipo de diálogo muito vivo. Mas ele se destacou no pós-guerra como o primeiro cineasta alemão a tentar refletir sobre o que fora o horror da guerra e do nazismo. Um de seus melhores filmes, ‘A Última Ponte’, feito na Iugoslávia, sob Tito, com Maria Schell, integra a programação. O filme reconstitui de forma pungente o martírio das populações iugoslavas na guerra. Mais famoso ainda é outro filme que, por não constar na lista de destaques do Mário, imagino que não vá passar. ‘O General do Diabo’, com Curt Jurgens, inspira-se numa peça – de Carl Zuchmeyer, é isso? -, por sua vez inspiorada num personagem real, um general da Luftwaffe que se tornou tão popular qe chegava a fazer aparições em filmes de propaganda. Só que esse homem, que amava voar, tinha plena consciência da barbárie do nazismo e chega a dizer, numa frase do filme, que não come para tentar refrear sua constante vontade de vomitar. Vi ‘O General do Diabo’ há muito tempo e guardo do filme uma sensação desagradável, como se o mundop filmado por Käutner fosse doentio e perverso (e não será?). Mário lembrou que ‘Monpti’ foi lançado em DVD. Interpretado por Romy Schneider e Horst Buchholz, o filme de 1959 marca uma evolução na personagem de Sissi, que havia sido responsável pela consagração internacional de Romy. Não sei se ‘Monpti’, em DVD, mantém o subtítulo ‘Um Amor em Paris’. Romy, um ano antes, havia feito ‘Christine’, na França, com direção de Pierre Gaspard-Huit, formando dupla com Alain Delon. Começou ali um romance mítico que prosseguiu por décadas, na tela e fora. Agora me lembro, Helmut Käutner fez, lá por 1955-56, um drama histórico biografando Ludwig II, rei da Bavária. O.W. Fischer era quem fazia o papel, mas eu não vi o filme que antecipa as abordagens de Luchino Visconti e Hans-Jurgen Syberberg. O.W. Fischer! Com Peter Van Eyck e Nadja Tiller, ele formava o trio preferido de intérpretes de Rolf Thiele. Não sei se vocês sabem quem foi esse diretor alemão, mas nos 50 e 60 ele chegou a ser cultuado por filmes como ‘O Ídolo Pecado’ e ‘Lulu’. Nunca esqueci uma frase da crítica norte-americana Pauline Kael, que dizia que Nadja, dirigida por Thiele, era uma das melhores putas (whores) que jamais haviam feito trottoir na tela. (Lembro-me de que, em ‘Kiss Kiss Bang Bang’, Pauline também define o Curt Jurgens de ‘O General do Diabo’ como um dos machos mais sedutores do cinema, um homem cuja autoconfiança realmente mexia, mexe?, com a libido das mulheres. Talvez tenha sido por isso que ele ganhou o prêmio de melhor ato em Veneza.) Com a lembrança de Helmut Käutner, é todo um período do cinema alemão que me vem à lembrança. Entre o expressionismo e o novo cinema alemão, houve um vácuo. A herança nazista foi expurgada e, entre 1945 e 65, foi como se não tivesse havido cinema na Alemanha. Mas houve e eu via aqueles filmes em Porto Alegre – comédias românticas e sentimentais com Romy Schneider e Marianne Koch, obras mais críticas como as de Käutner e Thiele.