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Luiz Carlos Merten

14 Março 2012 | 08h58

Meu dia ontem foi bastante agitado – quantos posts já comecei desse jeito? Cheguei no jornal cedo, pois, além dos filmes na TV, tinha uma página sobre ‘John Carter’, que terminou caindo, mas que eu redigi com imenso prazer, viajando nas lembranças de leitor de Edgar Rice Burroughs, cuja imaginação delirante (a dele) alimentou e talvez tenha até condicionado a minha. Corri muito, pois tinha de ver ‘Heleno’ e, à tarde, enfrentar a maratona de entrevistas (com o diretor José Henrique Fonseca, Rodrigo Santoro e Alinne Moraes). Achei ‘Heleno’ bem defensável, mas estaria mentindo se dissesse que gostei. Achei o filme esquisito. Usei a palavra ‘estranho’ e o diretor concordou comigo. É estranho, o que pode ser sua força, mas também seu limite. Assisti à via-crúcis de Heleno, sua descida aos inferno, mas não posso dizer que, depois da sessão, soubesse mais sobre ele do que antes (e não era muito). ‘Heleno’ narra a crônica de uma loucura anunciada, é a história de uma derrocada humana perfeitamente consciente, e isso torna o filme terrível, como experiência humana. É um filme sobre futebol? É, mas sobre os bastidores do futebol. Conscientemente – uso a palavra de novo –, Zé Henrique Fonseca tira de cena o fascínio do centreoavante clássico, do cabeceador notável. Rodrigo Santoro treinou muito com Cláudio Adão. Aprendeu a matar no peito, a cabecear. Rodrigaço diz que fez um gol digno de Heleno, mas o diretor cortou a cena – que promete colocar nos extras, no DVD. O que sobra de Heleno é o lamentável espetáculo de sua degradação. O destempero com adversários e companheiros, produto da deterioração mental provocada pela combinação sífilis + éter – mas isso não explica tudo, nunca explica –, produz momentos fortes. Heleno vive para o futebol e o Botafogo, mas para o clube ele é só moeda de troca. Vemos mais a cartolagem, os bastidores, do que os jogos. No limite, o que sobra é a transfrormação do belo Heleno, do belo Rodrigo, naquele farrapo humano – e, sejamos honestos, o Rodrigo decadente já estava em ‘Reis e Ratos’, que tanto ódio despertou. Posso não gostar tanto de François Truffaut, mas não o descarto. Nunca sei se a frase é dele, ou do autor do livro, ou de quem quer que seja, mas Jeanne Moreau/Catherine diz em “Jules e Jim’ que é uma mulher de moral duvidosa, porque duvida da moral dos outros. Eu também duvido. Acho que Mauro Lima entrou de gaiato numa disputa de poder que o extrapolava. Quase ouso dizer que o filme não tinha nada a ver com isso. ‘Reis e Ratos’ não é certamente o pior filme já feito, e tem até coisas interessantes, mas houve um massacre, por que? Conversei rapidinho com Rodrigo sobre isso. Não resisti e perguntei ontem ao ator se a prótese que usa em ‘Heleno’ é a mesma. Não é, claro. Era só uma provocação (e não com o Rodrigo). ‘Heleno’, o filme, é lindo – a fotografdia de Walter Carvalho, em preto e branco, é deslumbrante. Mas o ‘espetáculo’ é triste. Em primeiro lugar, não temos o espetáculo do futebol. Temos um homem de nariz empinado que trilhou o caminho da própria destruição. Numa cena, Rodrigo/Heleno comenta o fato de ser guerreiro no campo e um lorde fora do gramado. Diz que o mundo seria muito complicado, se fosse o contrário. Mas o mundo é complicado. Ele é guerreiro com os colegas, as mulheres (a própria mulher que ama) e quanto a ser um lorde no campo… O diretor não mostra. Nem a cobrança do pênalti nem o jogo do retorno. A câmera fica girando em torno de Heleno, expressando sua perplexidade (sua impotência?). Aliás, achei curioso que o filme, tão documentado, tome suas liberdades justamente com a mulher de Heleno. Para que isso fique bem claro, Zé Henrique e o roteirista Felipe Bragança chegaram a trocar o nome da personagem. Quero rever ‘Heleno’. Um pouco por Rodrigo, tão bom, mas também por causa das duas mulheres, Alinne e Angie Cepeda. Penteado, figurinos, as duas ficaram muito semelhantes em preto e branco, demais para o meu gosto e aquilo me incomodou. Zé Henrique disse que queria que Alinne fosse loira, mas havia o visual de uma novela, alguma coisa assim, e não deu para trocar. A pergunta que não quer calar, e que fiz para ele – por que o Heleno? Ele admite que muitas vezes se perguntou por que estava fazendo o filme? Chegou a pensar em parar. Com uma franqueza e honestidade raras, Zé Henrique admite que é bipolar. Ele compreende as oscilações de Heleno. Diante do filme, e com todos os seus méritos, de produção e até realização, fiquei com a desagradável sensação de que Heleno não é, dramaturgicamente, um personagem tão intrigante quanto parecia (ou poderia) ser. É só a história do sujeito que tinha o rei na barriga e vai para a vala.