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Luiz Carlos Merten

05 Janeiro 2010 | 15h55

Antes de falar sobre ‘Harakiri’, vale dizer duas ou três coisas sobre Kobayashi. Já que o ciclo no CCSP fornece um pequeno panmorama do cinem,a japonês de estúdio, é bom lembrar que ele começou na Sochiku, como assistente de Keinosuke Kinoshita, a quem emulou em seus primeiros filmes. Alguma coisa se passa em 1956, com ‘Anata Kaimasu’ (Te Comprarei), sobre a mercantilização e corrupção do beisebol proffisional no Japão. No ano seguinte, ‘Kuroi Kawa’ (Rio Negro), examina a corrupção e a violência (gangsterismo, prostituição etc) que floresceram à sombra das bases norte-americanas no país. Kobayashi se firma como o mais dialético dos grandes diretores japoneses. Os temas que o atraem são políticos e sociais. No fim dos anos 1950, ele inicia sua monumental adaptação de um romance de Jumpei Gomikawa, que resulta num projeto de quase dez anos, a trilogia ‘Guerra e Humanidade’. Os filmes são lançados isoladamente – ‘Não Há Maior Amor’, ‘O Camionho da Eternidade’, ‘A Prece de Um Soldado’, que contam as experiências de um homem durante a Guerra da Manchúria. Kagi, o protagonista, interpretado por Tatsuya Nakadai, é um idealista e, por meio dele, Kobayashi documenta asa transformações ocorridas no Japão – o fim do feudalismo, o militarismo, a guerra. Kagi atravessa os três filmes como representação do homem colhido nas engrenagens da luta de classes. Como autor de ‘esquerda’, Kobayashi talvez não tenha paralelo no cinema japonês da época. Ele faz lembrar Visconti. ‘Harakiri’ é o primeiro de dois filmes que ele dedicou ao universo dos samurais. Entre ambos, situa-se ‘Kwaidan’ (As Quatro Faces do Medo), um clássico fantástico que faz extraordinário uso da cor. ‘Harakiri’ e ‘Rebelião’, pelo contrário, fazem rigoroso uso do preto e branco.
“Harakiri’ passa-sae na era Tokugawa, quando se consolida o poder central, o xogunato. Para que isso ocorra, o poder dos clãs tem de ser delimitado. A queda dos senhores senhores feudais marca o início do fim dos samurais, que constituíam exércitos privados, como guardas de corpos dos suseranos. ‘Harakiri’ é narrado como um grande flash-back. Um samurai desempregado pede licença a um senhor feudal para cometer o suicídio ritual no páteo de seu castelo. O senhor, compadecido, o emprega. Surge esse outro samurai, um jovem, e o sdenhor agora, para evitar que novos casos se repitam, autoriza o bhara-kiri. O jovem vendeu sua espada. Rasga o próprio ventre com o que lhe sobrou, uma espada de bambu. O suicídio vira um ato de crueldade infinita. Entra em cena Tatsuya Nakadai, para vingar o morto. Ele promove um banho de sangue e Kobayashi transforma seu relato não apenas numa detalhada análise dos códigos de honra e técnicas dos samurais, mas também das maquinações políticas nos bastidores de castelos em que a classe dominante vive o fim de sua época, antes de ser substituída por um novo poder. O mais impressionante é que, no fim, todo o episódio é riscado dos anais, como se não tivesse ocorrido. É um pouco a antecipação de ‘Rebelião’, em que Toshiro Mifune faz o samurai que vai se queixar ao poder central da arbitrariedade de um clã. O suserano ordena seu melhor samurai (Nakadai) que mate Mifune, mas ele vive um conflito interior, pois sabe que a luta do outro é justa e que estará indo contra o código de honra se o liquidar. Nakadai então mostra a Mifune que poderia vencê-lo no sabre, mas recua para que ele o mate e possa ir adiante. Grande Kobayashi. Vejam ‘Harakiri’ hoje e depois me digam se exagero na minha admiração por este gênio que ainda não recebeu toda a consagração que merece.