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Luiz Carlos Merten

23 Agosto 2007 | 08h36

Vou confessar um dos meus pecados capitais. Tenho muita inveja, no bom sentido, de Rubens Ewald Filho por duas entrevistas que ele fez. Imagino que Rubinho tenha feito muitas outras na vida que eu (e qualquer cinéfilo) também gostaria de ter feito, mas essas duas… Rubinho entrevistou Jean Simmons. Jean quem? Exagero, claro. A Ofélia de Laurence Olivier surgiu no cinema inglês, no fim dos anos 40. Jean filmou muito em Hollywood, nos 50 e 60 – com Preminger (Alma em Pânico/Angel Face, um monumento noir), Cukor (Papai não Quer/The Actress) e Kubrick (Spartacus). Em 1960, foi a evangelizadora de Entre Deus e o Pecado, adaptação do romance Elmer Gantry, de Sinclair Lewis, feita por Richard brooks. Casaram-se e viveram juntos até a morte dele, em 1992. Em 1970, exatgamente dez anos depois de dirigí-la pela primeira vez, Brooks fez Happy Ending, que no Brasuil se chamou Tempo para Amar, Tempo para Esquecer. Hollywood teceu toda uma mitologia em torno do final feliz. Brooks fez um filme sobre a instituição do casamento. Jean Simmons vive infeliz, bebendo e assistindo na TV a todos aqueles filmes que terminam com finais felizes. Separa-se e, no fim, quando o marido tenta reatar, ela o deixa parado no meio da rua, ao fazer uma pergunta do tipo ‘Você acha que a gente poderia ser feliz?’ Vinicius dizia que é melhor chorar junto do que viver separado, mas ficar junto por ficar nunca é legal. Happy Ending discute o casamento, mas mostra que ele é necessário no processo capitalista. Lloyd Bridges explica a Shirley Jones que os casamentos movimentam a economia. Quem casa quer casa e todos aqueles ítens de consum,o que a acompanham. Não tem nada a ver com amor a análise que ele faz. Em 1970, Brooks já antevia o mundo globalizado e consumista! Me lembrei dele quando li ontem os comentários de vocês sobre a parceria do diretor com Conrad Hall. Volto ao Rubinho. Há alguns anos (poucos), ele entrevistou Jean Simmons. Velhinha, pelo que me contou, mas muito elegante e simpática. Falaram sobre Brooks e Rubinho me disse que o olho dela brilhou. Declarou seu amor, até hoje, ao cara com quem esteve casada por mais de 20 anos. Brooks é um dos meus ídolos. adoro suas duas adaptações de Tennessee Williams com Paul Newman (Gata em Teto de Zinco Quente e Doce Pássaro da Juventude), mas o ‘meu’ Brooks é o de Lord Jim, Os Profissionais e À Sangue Frio, com o arremate de Happy Ending. Romântico – o último da sua geração, que incluiu Nicholas Ray, Robert Aldrich, Anthony Mann e Sam Fuller, entre outros -, ele quebrou, na vida, a própria escrita. O amor de Brooks e Jean Simmons teve um final feliz.