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Cultura » Happy end ou Onde anda Sister George?

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Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2006 | 10h28

Fomos ontem, Flávia Guerra e eu, entrevistar o Karin Aïnouz, diretor de O Céu de Suely, que estréia na sexta que vem, dia 17. Conversamos com Karin, com Hermila Guedes, atriz do filme. Karin integra o grupo que eu chamo de ‘meninos do Walter’. Como as de Marcelo Gomes e Sérgio Machado, sua carreira tem um elo muito forte com Walter Salles e a Videofilmes. Walter é uma referência nacional e internacional do cinema brasileiro. Fez filmes de que gosto muito, outros de que não gosto tanto. Já escrevi que os meninos do Walter são melhores que ele, não para agredir um artista que respeito, mas pelo simples motivo de que encontro nos filmes desse trio, os ‘meninos’, uma ligação com a terra, com a raiz, com a gente do Brasil que me parece que vai se ausentando do cinema mais cosmopolita do Walter. Karin conversou muito honestamente sobre a gênese de Suely, sobre o seu desejo de fazer um filme diferente de Madame Satã e, ao mesmo tempo, de fazer um filme mais narratrivo, com história. Madame Satã, como ele diz, é um choque permanente de brutalidades e instintos. O Céu de Suely tem essa linha mais narrativa, mesmo que muito tênue. E ele queria ousar. Tinha sempre muito claro aquele fim inconclusivo, que é genial e ao qual vou ter de voltar. Sei que tem gente que me critica por contar o fim dos filmes. Às vezes, de forma muito consciente, tento evitar, mas se quebra o raciocínio termino entregando os pontos (e o desfecho). Não dou tanto valor assim ao final dos filmes. Pode ser um erro, do ponto de vista do público, mas acho que se prender muito a isso é privilegiar o consumo, não analisar seriamente. É incrível, mas depois de ter visto mais de 20 vezes o Psicose do Hitchcock, continuo passando mal quando Janet Leigh entra na ducha e quando Vera Miles desce ao porão da casa onde encontra, de costas para ela (e o público), sentadinha naquela cadeira, a mãe de Norman Bates. Sei tudo o que vai ocorrer, os planos correm na minha cabeça como diante dos meus olhos, mas eu fico de coração na mão, como da primeira vez que vi Psicose, ainda garoto. Porque não é o suspense, em si, que me emociona. É o significado humano mais profundo, a tragédia da mente enferma de Norman, para a qual não haverá remédio, ao contrário da de Marnie, que vai ser uma espécie de Norman Bates mulher (e curável), na obra seguinte de Hitchcock. Fechado esse entreato, que sei que vai provocar muitos comentários – peguem leve, por favor –, quero assinalar o que disse o Karin. Perguntei se ele tinha visto Volver, do Almodóvar, que também investiga o universo feminino. Ele disse que adora Almodóvar, seus retratos de mulheres, mas ainda não viu (ou não tinha visto) Volver. Disse que tem gente que estranha como um homem pode se interessar tanto pelo universo feminino, a ponto de fazer da mulher, ou das mulheres, suas personagens preferidas. Acrescentei que acho que os grandes filmes sobre mulheres da história do cinema são assinados por homens. Cukor, Almodóvar, Mankiewicz, Bergman, Mizoguchi. Alguns deles são gays, mas não necessariamente. Isso provocou um comentário do Karin, com o qual concordo, integralmente. Ele disse que os grandes filmes de gays não são dirigidos por diretores gays. Citou o Felizes Juntos, do Wong Kar-wai, pelo qual sou louco (a cena do matadouro, com todo aquele sangue no chão, me deixa em êxtase). Eu citaria mais Os Pecados de Todos Nós, que foi o filme que me fez gostar do John Huston. Acho Visconti genial, é meu autor preferido, mas não gosto muito de Morte em Veneza. Há ali uma autocomiseração e uma espécie de mistificação – o velho pederesta sublimando seu desejo pelo garoto como manifestação de amor ao belo e à arte – que me incomoda. Percebo a intenção, não sou burro, mas não me ligo muito em Teorema, do Pasolini. Meus filmes preferidos sobre o mundo mix, já que há um festival rolando na cidade, são punks, no sentido da radicalidade. Felizes Juntos, Os Pecados de Todos Nós e os filmes do Aldrich sobre homossexualismo feminino. Nunca mais revi o filme, que sumiu, mas até onde me lembro não existe nada mais forte que a cena de Susannah York e Coral Browne em Triângulo Feminino (The Killing of Sister George), que ele fez em 1968. Onde anda Sister George? Por que ninguém recupera o filme? Mistério…