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Hans Christian, menino, soldadinho

Luiz Carlos Merten

20 Abril 2010 | 10h22

SALVADOR – Este post talvez devesse ter sido acrescentado do Rio, logo após assistir a ‘O Soldadinho e a Bailarina’, a versão de Gabriel Vellela para ‘O Soldadinho de Chumbo’, de Hans Christian Andersen, espetáculo infantil produzido por Luana Piovani. Infantil? Depende do que cada espectador projeta nele. Conta a lenda – mas não é lenda, é realidade – que Andersen, quando criança, viveu uma experiência traumática. Ele teria sofrido, ou sofreu, o que hoje se chamaria de abuso. Seus colegas o atacaram, rasgaram suas roupas, tentando descobrir se, por baixo daquelas rendas delicadas, havia um menino ou menina. Hans Christian Andersen era homossexual. Na sua monumental ‘História da Literatura Ocidental’,  uma peça literária à altura dos autores que comenta, mestre Carpeaux faz uma análise comovente de Anderson, este menino que nunca amadureceu e que fez de si mesmo o personagem recorrente de sua literatrura. São histórias de personagens frágeis, de amores condenados, de busca do absoluto. O soldadinho é o próprio Hans Christrian. Ele é pernerta e ama a bailarina de papel. Ambos vão se consumir no fogo. Gabriel Villela fez um belo espetáculo para crianças. Canto, dança, um figurino maravilhoso (que ele próprio criou) e um vilão que me lembrou o sombrio Dr. Caligari (apesar de ser mega-colorido). Assisti ao espetáculo no Teatro Tom Jobim, em pleno Jardim Botânico do Rio, em meio a uma plateia de convidados. Era celebridade para tudo quanto é lado, algumas poltronas para lá estava o próprio Milton Nascimento, a quem Gabriel Villela dedica a montagem.  As crianças vibravam, mas havia outra vibração, a dos adultos. Há muito de visceralidade e tristeza, para quem se dispuser a investigar essa montagem com as chaves do Dr. Feud. A lua continua assombrando o teatro de Gabriel. A lua de ‘Calígula’, a do ‘Soldadinho’. Ele é engolido por um peixe, arde no fogo. Como se cria isso com efeitos puramente cênicos?  Gabriel incorpora elementos de commedia dell’arte, de repente seus soldadinhos são palhaços. Achei muito bonito. Me emocionei. Depois, fomos jantar. Xuxa Lopes juntou-se ao grupo. Gabriel e ela ficaram lembrando histórias do set de filmagem de ‘Brincando nos Campos do Senhor’. Tom Waitts, Tom Berenger, Kathy Bates, Daryl Hannah.  Gabriel morre de vontade de fazer cinema. Na verdade, ele faz cinema no ‘Soldadinho e a Bailarina’.  O espetáculo prossegue no Rio, ele mora em São Paulo, em seguida recomeça a ensaiar ‘Calígula’ para a turnê da peça pelo Brasil (quer começa acho que em junho, em Brasília). Imagino que volta e meia ele deva ir ao Rio para conferir sua criação, mas longe dos seus olhos  o espetáculo corre o risco de mudar. Espero que não mude. Embora seja a ‘estrela’, Luana Piovani faz parte da massa coral do espetáculo. São 12 atores/personagens em cena, todos ótimos cantores e dançarinos. O próprio Hans Christian teria gostado.