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Luiz Carlos Merten

14 Junho 2007 | 16h25

Um coisa sempre termina levando a outra, no blog. Havia escrito, na coluna de filmes da TV de domingo, do Telejornal, sobre um Chaplin genial, O Grande Ditador, que o Telecine Cult vai exibir às 10 da noite. Escrevendo o comentário sobre o comentário da Alana, terminei falando no Massimo Troisi como personagem chapliniano. Volto agora ao Chaplin, ao autêntico. Revi há pouco a cena-chave de O Grande Ditador, quando Chaplin brinca com o globo, transformado numa bola. A cena, antológica, virou uma referência tão forte que até a Globo, acho que na novela O Dono do Mundo, do Gilberto Braga, utilizou aquelas imagens nos créditos de abertura. Conta a lenda, e se é lenda a gente imprime como se fosse realidade (John Ford em O Homem Que Matou o Facínora), que o próprio Hitler se fazia projetar secretamente o filme no qual é alvo de uma sátira demolidora pelo criador de Carlitos. Em Cannes, este ano, Walter Salles mostrou, além de seu episódio para Chacun Son Cinéma, outro curta que também foi exibido no Palais. Carta a V… é a uma carta aberta de Waltinho a seu filho, Vicente, ainda bebê. Ele fala de suas aspirações em relação ao mundo e ao garoto, usando o cinema para falar da vida. Como primeira cena para o Vicente ver no cinema, Waltinho escolheu a do Chaplin com o globo. Foi lindo! O Grande Ditador é um filme que me emociona muito. Tenho lá os meus Chaoplins, que, em geral, não são os dos outros. Gosto de O Grande Ditador e Luzes da Ribalta, cuja cena final também é sublime – Calvero morre e Claire Bloom, como a bailarina, sai dançando, numa imortalização da arte. Todo cinéfilo sabe disso, mas Chaplin, tendo criado a pantomima de Carlitos – o movimento acelerado de seu personagem – usando os 16 quadros por segundo com que o filme era projetado, na era do cinema mudo, resistiu o quanto pôde ao advento do sonoro. Pressionado, ele acrescentou música a Luzes da Cidade e criou aquele diálogo que não faz sentido em Tempos Modernos, que, de resto, é um filme mudo com música. Finalmente, em 1940, com O Grande Ditador, Chaplin, finalmente, admitiu que o cinema falava. E usou a palavra para criar o emocionante discurso final do barbeiro. Hannah! Hannah! Ele chama e Paulette Goddard, como a judia lançada ao solo, ferida pela barbárie do nazismo, levanta a cabeça e ouve o texto magnífico, que é, até hoje, 67 anos depois, o maior manifesto humanista criado pelo cinema. Me arrepio todo. Tenho o DVD em casa e, de vez em quando, ponho só o final de O Grande Ditador para renovar minhas forças diante desse mundo globalizado que é tudo, menos admirável. Nunca vou deixar de sonhar e lutar, dentro das minhas possibilidades, por um mundo melhor. O discurso final de O Grande Ditador é sempre uma inspiração.